Na trilha rumo ao platô, a poeira não deixa os pés ficarem limpos e o sol escaldante molha de suor as roupas. Ao longo do percurso encontramos laranjeiras, com frutas madurinhas e limas, daquelas bem docinhas. Subir a Serra da Barriga - na cidade alagoana de União dos Palmares - rumo ao Quilombo dos Palmares não é tarefa fácil. Uns dizem que ônibus grandes não chegam, porque o acesso é ingrime, então, o jeito é ir de van ou carro.
A expedição de jornalistas, professores e estudantes se deu em comemoração a um ano de atuação da Comissão de jornalistas pela igualdade racial (Cojira/Al) e em pleno mês da consciência negra fomos presenteados com uma visita inesquecível ao maior símbolo de resistência negra do mundo. A curiosidade de todos era o fator comum e admirados com o misticismo do lugar, guardávamos, através de câmeras fotográficas e da memória, cada pedacinho da serra.
Árvores centenárias foram as únicas testemunhas do confronto pela liberdade e fincadas em solo sagrado, protegem os que ali pisam, se balançando e emitindo sons por vezes confundidos com lamentos. Elas protestam pela condenação a qual foram submetidas há séculos: a impossibilidade de contar o que presenciaram.
Na região, artefatos indígenas revelam a identidade de guerreiros tupinambás, que junto com os negros ergueram suas lanças em busca da libertação. A 500 metros acima do nível do mar, o oxigênio parece acabar em alguns momentos. Senti uma coisa estranha à medida que andava, meu nariz começou a arder e tive uma leve tontura. Mas, a vontade de conhecer aquela terra me fez melhorar aos poucos.
De acordo com um documento do século XVII, de autor desconhecido “Palmares, então terra selvagem e desabitada, surgiu aos olhos dos negros apavorados como a única fuga possível. Um sítio naturalmente áspero, montanhoso e agreste, com tal espessura e confusão de ramos que em muitas partes é impenetrável a toda luz; a diversidade de espinhos e árvores rasteiras serve de impedir os passos e intrincar os troncos”.
O quilombo é considerado o maior das Américas, ocupando uma área que corresponde a 10 mil metros e já teve mais de 20 mil habitantes, o que o levou a ser reconhecido como nação pela Coroa Portuguesa. Lá, negros, índios, mestiços e brancos renegados pela cultura portuguesa tinham leis, língua, cultura e economia próprias e os vestígios dessa história ainda são evidentes no povoado negro de Muquém, apontado como de descendência palmarina. Infelizmente, os habitantes de lá desconhecem sua origem por causa de estórias contadas pelos brancos e não admitem que tiveram um antepassado que viveu nas senzalas do Brasil colonial, mesmo tendo pele escura e olhos claros.
Durante oito décadas, os portugueses tentaram desmanchar o quilombo. Liderados por Zumbi, negro nascido em Palmares e criado até os 15 anos pelo padre português Antônio Melo, na cidade de Porto Calvo, os quilombolas inauguraram a guerrilha no Brasil. Foi em uma área conhecida como Cerca Real dos Macacos, que na madrugada do dia 6 de fevereiro de 1694 aconteceu uma das mais sangrentas batalhas pela liberdade no continente.
Mas, recoberta por um verde estonteante a vista lá do alto continua belíssima e é possível perceber gente chegando ao longe, basta ir a um dos quatro mirantes, antigamente chamados de atalaias, que serviam para ver previamente os inimigos. Apesar do isolamento, a morada parece boa para alguns, já que cerca de dezenove famílias - que não são tidas como descendentes de quilombolas - vivem lá, e com o turismo transformaram suas próprias casas em estabelecimentos comerciais e contam e vivem histórias assustadoras e engraçadas, como uma que escutei do guia.
Um parente de um morador se irritou com o nome da lagoa e começou a dizer que o lugar era amaldiçoado. Após falar asneiras, a sua moto não queria sair do lugar e com muito esforço ele chegou em casa assustado, pedindo ajuda e dizendo que estava sangrando, pois fora atacado por dois negros que o furaram com facões. O homem não tinha nada e acabara de ter alucinações. Tem também a lenda de uma serpente, que desce até a lagoa às seis horas da tarde para beber água, por isso depois desse horário ninguém chega lá.
Existem pessoas que vêem mulheres lavando roupas á beira da lagoa e homens afiando suas lanças. Outras, assim como eu, ouvem vozes femininas se lamentando e homens tocando berimbau e cantando ladainhas de capoeira ou até mesmo se arrepiam, com a presença de almas centenárias.
Isso geralmente acontece na Lagoa dos Negros, que tem uma árvore sagrada para as populações africanas e conhecida como Odam. Conta a história que uma gameleira, hoje com mais de 300 anos, foi levada para lá pelos palmarinos, onde eles faziam suas rezas e oferendas aos orixás. Afirmam ainda, que se ela morrer a lagoa seca, já que embaixo da árvore fica a fonte mais forte de onde brota a água. Para chegar até lá tivemos que descer por trilhas de barro e nem dá para imaginar que encontraríamos tanta beleza.
Ouve uma época em que acreditavam que o líder Zumbi enterrara um tesouro no quilombo, por volta dos anos 70 e começo dos 80. Usavam explosivos e tratores para procurar o ouro do guerreiro. Hoje, a Serra da Barriga é tombada e um patrimônio da humanidade.
Os orixás ainda protegem a serra, a capoeira mantém viva a luta por liberdade, a lagoa dos negros e a gameleira preservam a energia dos quilombolas. Eles continuam ali, não podem ser vistos por todos, mas vêem cada um e ainda sonham e clamam por um mundo sem preconceitos, opressão e desigualdades.
