quarta-feira, 26 de novembro de 2008

O menino das sandálias


Eu estava no Centro da cidade e voltava de ônibus para casa, depois de uma reunião no Sindicato dos jornalistas. Enquanto os passageiros se amontoavam – alguns jogando suas sacolas, bolsas e até carteiras de identidade nas cadeiras, para garantir o lugar – eis que uma pessoa sobe sem pagar a passagem.
Por uma das janelas alguém joga dois pares de sandálias, ainda com os cabides usados para mostrá-las na vitrine. De repente, um corpo magro e pequeno coloca os braços para dentro, se pendura e se espreme, até entrar, passando por cima de um homem e de uma mulher que estavam sentados próximos.
Demora alguns segundos, até que percebam que é um menino, com cerca de 12 anos e jeito de homem. Com cabelos loirinhos e meio despenteados, ele parecia drogado, vestia roupas surradas e tinha os pés descalços, já que as sandálias eram femininas e não serviriam. Quando o ônibus começou a andar ele se abaixou, rindo e se orgulhando do que tinha acabado de fazer.
A alguns metros dali, homens corriam e dois carros da polícia vinham atrás, mas o trânsito intenso não deixou que eles se aproximassem e todos sabiam o que havia acontecido. Uma policial que estava na parada de ônibus ignorou a cena, já que se tratava de uma criança, que certamente apanharia e seria liberada, voltando ás ruas.
“Eu roubei mesmo, a gente pede e ninguém dá. Entrei na loja, peguei e corri, aí os homens vieram atrás e não pegaram. Eu não gosto de roubar gente no ônibus, não pego celular, prefiro as lojas, como a Cea e o Hiper, porque tem dinheiro", contava o pequeno ladrão.
Todos se entreolharam, abismados, até que uma mulher que estava perto dele indagou: “Ai você rouba e te pegam e você apanha e depois faz o quê?E se depois você morrer?
Normalmente, ele respondeu: “Aí eu apanho e sou solto, faço de novo, eu vou ser assim pra sempre, se morrer enterra, isso é besteira. Minha mãe é tão pobre, mas minha tia é rica, ela nem liga pra gente”.
A passageira rebateu: “Se sua tia é rica por que você não vai roubar ela?Você vai ser enterrado se tiver caixão, né?Porque nem isso vai saber se tem.
“Eu vou bem roubar minha família?Tenho que roubar os outros, até o dia em que morrer e nem sei se vai ter caixão. Eu sou assim, ás vezes me dá uma doida e eu saio por aí, nem ligo”, ironizava ele.
O ônibus já havia se afastado bastante do local do furto e nenhuma viatura da polícia o interceptou. Foi aí que o menino deu sinal para descer, colocando as sandálias embaixo da camisa – uma na parte da frente e a outra atrás – agradecendo. Ao ser perguntado sobre o que faria com elas e se tinha medo de ser pego, ele foi enfático: “São sandálias de mulher, vou vender. Viatura de polícia pra mim é táxi”.
Esse é o retrato da nossa sociedade, que cultiva marginais e que no futuro, poderão matar para roubar. Porém, não adiantaria punir sem atacar o cerne do problema, ou seja, o cumprimento dos direitos básicos do cidadão, como educação e alimentação.
A banalização de espisódios como esse reforça a idéia de que vivemos sob um sistema falido e cheio de desigualdade, que enterra nossa esperança de dias melhores. As drogas populares (Cola e maconha) já fazem parte do cotidiano e as pesadas (Crack e cocaína) podem ser compradas facilmente.
Se ricos roubam e não são presos por que um pobre, que não tem o que comer não pode roubar? Imagine se as milhares de pessoas oprimidas pela fome fizessem isso? O garoto deve pensar assim e será que um dia o verei novamente?Com uma arma na mão ele poderia levar meus bens e até me matar, só não conseguiria reaver a dignidade que lhe fora roubada.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Doar sangue faz bem


Quando quiser fortalecer e purificar o coração, enchendo sua vida de energias positivas, basta fazer uma doação de sangue. Esse foi o gesto de amor que pratiquei hoje e pela primeira vez poderei compartilhar minha vitalidade com outras pessoas, visto que neste 25 de novembro comemoramos o dia nacional do doador.
Imaginar que meu sangue O+, apressado e forte vai pulsar nas veias de alguém chega a ser emocionante. A decisão foi rápida, vi uma faixa na rua e fui até o Hemocentro de Alagoas (Hemoal), onde é necessário apresentar um documento com foto e preencher um cadastro, para pegar a senha.
Após isso, uma mulher vestida em um jaleco pergunta seu peso e altura. Logo, ela está furando o dedo do futuro doador com um tipo de grampeador – que dói um pouquinho – e colocando o sangue em dois tubinhos finos, que servirá para a realização de exames posteriores de Sífilis, Hepatite B e C, Aids, Doença de chagas e HTLV I e II.
Cinco minutos depois o número da senha é chamado e é preciso falar com um médico, que mede sua pressão arterial, o pulso, a temperatura e faz perguntas intímas para avaliar os antecedentes patológicos e os possíveis fatores de risco do doador, pois para estar ali tem que cumprir certas exigências.
O voluntário ou voluntária não pode estar gripado, ter tatuagens e piercings há menos de um ano, estar grávida ou amamentando, ter ingerido bebida alcoólica 12 horas antes da doação, ter parceiros que fazem hemodiálise e que tenham recebido transfusão ou sejam portadores de hepatite B ou C, Aids, e HTLV I e II.
Além desses pré-requisitos a pessoa tem que estar com saúde, ter entre 18 e 65 anos, ter se alimentado e dormido pelo menos 6 horas antes, sem falar no intervalo de doação que para o homem é de 2 meses e para a mulher de 3 meses. Nada que a honestidade não supere, porque para doar é preciso ter responsabilidade.
É chegado o momento de entrar na sala de coleta, dá medo ao pensar que durante aproximadamente 20 minutos você terá que ficar apertando uma espécie de bolinha, como se bombeasse seu sangue, mas no fim não dá hemorragia e mesmo com a pressão um pouco baixa tudo fica bem.
Ainda existe uma escassez de doadores em todo o Brasil, porque mesmo com as inúmeras campanhas poucos voluntários se mobilizam. Isso pode inviabilizar procedimentos médicos, como no caso de pessoas que fazem quimioterapia e que se não receberem o suporte de transfusão podem não resistir ao tratamento. Além disso, a falta de doações implica no adiamento de cirurgias cardíacas, transplantes de rim, de fígado, medula óssea entre outros, que necessitam de sangue e de plaquetas.
Todo material utilizado é descartável e os mitos devem ser superados, já que o procedimento não afina nem engrossa o sangue, não engorda nem emagrece e não vicia. Agora, estou cadastrada como doadora e isso é maravilhoso, porque com um simples gesto poderei salvar até quatro vidas, uma vez que o material é separado em diferentes hemocomponentes, que são o concentrado de hemácias (glóbulos vermelhos), concentrado de plaquetas, plasma e crioprecipitado. É preciso lembrar que qualquer um pode precisar de sangue, inclusive aquele que deixa o estoque dos hemocentros vazio, por medo ou ignorância.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

O negro no poder



No 20 de novembro comemoramos o dia nacional da consciência negra, data histórica, principalmente para os alagoanos, já que ela marca a morte do líder negro, Zumbi - que lutou pela liberdade no quilombo da Serra da Barriga, na cidade de União dos Palmares, para onde os escravos fugidos iam. Sua guerra era justa e foi capaz de despertar a ira dos poderosos da capitania de Pernambuco, que expuseram sua cabeça em uma praça, achando que eram vitoriosos.
Hoje, representamos 50% da população brasileira, ou seja, são 90 milhões de negros e pardos e depois de tanto tempo a batalha ainda é travada dia-a-dia e o legado do guerreiro mantém viva a esperança daqueles que querem ser libertos, não mais dos grilhões supostamente quebrados pela lei áurea, mas do preconceito e da desigualdade que enfrentam em pleno século XXI.
Os quilombolas vivem hoje, só que em novos rostos e sob diferentes formas de opressão. Alguns têm pele escura e olhos azuis – fruto da miscigenação – e também a cara da fome e da desilusão. Continuam fragilizados e parece impossível devolver o que lhes fora roubado, tamanha é a dívida que a humanidade tem para com eles.
Mesmo depois de libertos os negros não tinham emprego, já que acreditavam que eles não eram qualificados para a nova forma de trabalho. Logo, foram facilmente substituídos por europeus, a população estava se multiplicando e queriam um país embranquecido. Como se enganaram, fizeram nascer um país de tantas cores e culturas, capazes de alimentar o desejo de dias melhores.
“Um negro a serviço dos brancos” é o que dizem a respeito do presidente recentemente eleito nos Estados Unidos (Eua), Barack Obama, que desbancou o candidato republicano, John McCain, um branco bem sucedido, estereótipo de um presidente digno para uma potência mundial.
Obama dá vida à utopia de ter um negro no poder, já que a cor da sua pele lembra uma luta que está para além da política. Como seria possível elegê-lo, em um país massivamente racista, berço de organizações como o Ku Klux Klan? A ascensão do presidente mostra que a igualdade de direitos que nos foi roubada já está para além do sonho. Será que se Martin Luther King estivesse aqui acreditaria que a mentalidade sobre a questão racial mudou?
No entanto, ainda estamos nas periferias e favelas - senzalas da vida contemporânea -sem emprego, educação, saneamento e dignidade. Não somos coitadinhos e sim injustiçados, por isso me pergunto se existe diferença entre um negro pobre e um negro rico e descubro que a questão é mais complexa do que a falta de igualdade nas oportunidades.
Qualquer negro que chega ao poder – nas suas inúmeras variações - é cruelmente criticado, logo acusado de prestar serviços aos que antes lhe escravizava, e por que não teria legitimidade para tomar suas próprias decisões?
Independente da classe social e do lugar que ocupa, somos vistos com indiferença, que toma forma até em brincadeiras despretensiosas e não importa se estamos falando de um morador de rua, de um ídolo de futebol ou do ministro da cultura.
Até na gramática e nas cores percebemos as contradições entre o preto e o branco. Afinal, por que a magia ruim é a negra? Por que uma desgraça engraçada é humor negro? Por que o gato preto dá azar?Por que o branco é paz e o negro é morte? Por que dia de trabalho é dia de branco?Qual o racista que determinou essas coisas?
Esses detalhes estão implícitos em nossa cultura - embora ela seja tão misturada - e ás vezes eles vêm à tona, devido à hipocrisia cultivada há anos e ainda regada nos dias de hoje, que culminou com a destituição de reinos africanos, em nome do desenvolvimento de outras terras.
Procuram remediar o problema mostrando o negro de relance e falando dele nas estrelinhas, como se até hoje não fosse vítima da desigualdade. Nas novelas continuamos na cozinha, limitados a servir os brancos e nos programas de tv nunca somos apresentadores. As crianças não querem bonecas escuras, porque são vistas como estranhas e o branco já é a cor predominante.
Dão asas à idéia de que os negros são feios e até eles nutrem essa premissa, não se identificam com o que é tido como belo, quando na verdade são apenas diferentes, lindos e cheios de graça em suas características.
O fato é que o negro só é bonito em seus guetos, como no carnaval de Salvador e do Rio de Janeiro, que exibe nas escolas de samba belas mulatas. Músicas afro são lindas apenas em terreiros de macumba e em rodas de capoeira – Criada pelos africanos e praticada por gente de todo o mundo – a religião foi usurpada pela igreja e passou a ser coisa do demônio, mas para quê besta maior do que aquela que abusa de crianças?
A instrução dada por alguns pais influi na liberdade de pensamento dos pequenos, reproduzindo costumes racistas, já que para mim, a questão está diretamente ligada à educação. Porém, não dá para acreditar que quanto mais instruída, menos preconceituosa uma pessoa será.
Ninguém admite que tem preconceito, isso não é coisa para se dizer publicamente, só que basta ver alguém usando dread lock ou qualquer outro penteado afro e até um médico ou advogado “de cor” para que ele se manifeste. Se hoje os negros vão á escola e se profissionalizam, antes os homens só faziam serviços braçais e as mulheres serviam para satisfazer os desejos dos senhores de engenho, que as engravidavam e vendiam seus próprios filhos.
Temos sim muito a comemorar, porque a cada ano a esperança se renova, lembrando que a luta dos quilombolas de Palmares não foi em vão. Mas, é preciso saber que o 20 de novembro não deve ser visto apenas como um marco da negritude, e sim, como uma reflexão para cada pessoa, já que é ao longo dos dias e com a ajuda de todos que a história deve ser reescrita. Existirá um lugar onde não haverá distinção entre negros e brancos, pois lá existirão seres humanos, independente da cor da sua pele, porque o espírito é transparente.

domingo, 16 de novembro de 2008

O corretor falador


- Esta cidade promete! Grandes investimentos estão sendo feitos aqui. É preciso aproveitar a especulação imobiliária e vender, vender. Assim, eu lucro, lucro hehehehehe. Você jovem Evan é um comprador em potencial. Com seus dólares canadenses faremos ótimos negócios, falava Lindolfo, enquanto passeava com seu cliente pelas praias de Fortaleza.
- É verdade, o investidor estrangeiro tem algumas vantagens aqui, mas tenho que analisar os riscos primeiro, retrucava o estudante canadense.
Evan Kasper viera do Canadá para o Brasil concluir sua tese de mestrado e apesar da jovialidade de seus 26 anos, entendia bem as intenções do corretor. Poliglota, agora o moço também falava português e seu corpo delgado e aspecto ingênuo, reafirmado em um rosto com traços finos e angelicais, onde repousavam mansamente seus olhos erverdeados e sua boca cálida, escondiam a sabedoria de um empreendedor.
Já Lindolfo Monteiro era um corretor de imóveis típico de cidades litorâneas do Nordeste brasileiro. Capitalista, tinha uma boa conversa e com sua voz firme, aliada ao seu poder de persuasão, levava qualquer um no papo. De baixa estatura, seu rosto bronzeado que evidenciava um sorriso sarcástico e um olhar crítico, já possuía algumas rugas, devido aos seus 36 anos. Mesmo fora do escritório e sob um sol escaldante, ele se vestia formalmente, usando camisa com mangas compridas e calça social.
Há oito anos ele atuava na profissão e sempre fechara grandes negócios com investidores brasileiros. Seria sua primeira experiência com um norte-americano, que pretendia comprar alguns lotes, próximos a uma área onde seria construído um resort, pertencente a portugueses. De acordo com o corretor, essa informação era privilegiada, já que a obra ainda iria começar. Logo de manhãzinha, ele chegava sem avisar na casa onde o moço estava alojado.
- Toc, toc, Evan sou eu. Vim aqui pra te levar na construtora, preciso que você assine uns documentos.
- É muito cedo ainda, reclamava o rapaz antes de abrir a porta.
- Meu garoto, os empreendimentos nos esperam, não podemos perder tempo. Vou te dar todas as orientações pra que tudo dê certo.
E lá ia o investidor tratar de negócios, vestido em sua bermuda tropical e camisa regata e calçando chinelos. Convencê-lo da magnitude da aquisição não estava sendo tarefa fácil. O corretor teria que se desdobrar, agradando o moço para que enfim, ele ajudasse a engordar seu salário.
Os dois seguiam no carro de Lindolfo, que rodava pra cima e pra baixo, dando toda assistência ao cliente.
- O carro é fundamental pra o seu trabalho, não é?
- Claro, sem ele eu não sou nada. A propósito, vamos falar mais sobre a possibilidade de você me conseguir uns clientes. Você conhece imobiliárias canadenses?
- Claro, minha tia é corretora em Toronto, tenho também alguns amigos, vou entrar em contato com eles.
Sim, sim eu posso dar toda assessoria a eles. Vou buscar no aeroporto, mostro a cidade, as grandes obras, vamos lucrar abrindo uma sociedade Evan, voaremos alto. Assim como eu, você também sabe ganhar dinheiro.
Eles passavam quase todas as manhãs juntos, resolvendo coisas no banco, na construtora, e depois saiam para almoçar. Quanta presteza daquele corretor, só que o canadense contestava tudo: Preço do metro quadrado, valorização da área, transferências bancárias etc. Evan era sincero, falava mesmo quando não gostava de alguma coisa, mas Lindolfo era persistente.
- Fico um pouco preocupado com a conversão do meu dinheiro, tenho que analisar se perderei alguma coisa.
- Não se preocupe garoto, eu resolvo tudo! O problema é que o banco tem umas burocracias.
- Está vendo aquele terreno? na copa de 2010 ele vai se transformar em um grande estacionamento, dizia o corretor, enquanto passava próximo a um estádio de futebol.
- E o tamanho desse lugar, eu só precisaria dele pra ficar rico. Ótima localização e espaço, comentava ele, se referindo ao terreno onde estava localizada a base aérea da cidade.
Lindolfo enxergava coisas que as outras pessoas talvez não viam. Era capaz de imaginar condomínios em terrenos baldios e hotéis em campos de futebol. Fanático por empreendimentos, ele tinha mesmo vontade de ser dono de uma construtora.
Evan era desconfiado e gostava de uma segunda opinião, visto que consultava advogados e outros corretores, para poder fechar o negócio e foi em uma manhã ensolarada de terça-feira, que após algumas transações bancárias, o rapaz ligou para Lindolfo.
- Oi, vamos fechar, o dinheiro já está liberado. Agora é contar com a valorização dos terrenos.
- Com certeza garoto e já tenho novas propostas pra você. Estou vendendo uns apartamentos e quero que você dê uma olhada. Vou mandar as propostas pra o seu e-mail e mais tarde passo aí.
- Vamos por partes, porque eu já comprei os lotes.
- Eu tenho uns planos especiais pra você. Agora que você fez a primeira compra nunca mais te deixarei em paz hehehehe, dizia Lindolfo que estava feliz da vida com a venda lucrativa.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Viajar é preciso...

Arrumando as malas para viajar durante o final de semana percebi como tenho roupas que não uso. Elas estão amontoadas no guarda-roupas e muitas eu nem lembrava que existiam. São blusas que estão grandes ou pequenas demais, saias e calças que caem só de eu pensar em vesti-las e o mais curioso é que dá vontade de levar só o que é novo, apesar de nem todos conhecerem meu figurino.
Os homens podem carregar consigo uma mochila com poucas camisas, duas calças, um chinelo e um tênis, dependendo do lugar onde vão e do tempo que lá irão ficar. Já as mulheres presumem combinações mirabolantes, que abarrotam as malas e que muitas vezes voltam sem nem terem saído delas. É maquiagem, bijuteria, sandálias e demais acessórios, só para não falar em vaidade.
É difícil evitar exageros, pode haver alguma programação para a qual não teremos o traje ideal. Antes de viajar, costumo ter um sonho estranho, onde eu nunca levo as roupas certas para a ocasião e acabo não saindo. Logo, minha bagagem tem de biquínis a vestidos, afinal, nunca se sabe. Um livro, meus óculos de grau e meu celular, eis companheiros fiéis durante qualquer aventura.
Viajar é sempre revigorante, não que a gente esqueça os problemas, mas eles parecem mais distantes da estrada. Porém, o nosso lar faz falta, por mais lindo que seja o lugar que visitemos. Conhecer aquilo que vimos apenas na tv ou na Internet é bem emocionante e chocante, porque não tem só beleza, em tudo existe um lado triste; Uns trabalham para outros se divertirem.
Tem gente que vive de viajar, dando a volta ao mundo em um barco ou balão. Maluquice para uns e uma idéia maravilhosa para mim, só que as responsabilidades da vida moderna não permitem. É uma questão de escolhas, ou você trabalha ou vive conhecendo lugares, a não ser que planeje bem suas férias anuais. Sair por aí sem destino agrada e até rende dinheiro, com a publicação de livros que relatam as aventuras. Quem sabe eu faço isso.
Tem gente que nunca saiu do lugar onde nasceu, não conhece outra realidade, por culpa dessa má divisão econômica. Eu me classifico como aquela pessoa que tem vontade de conhecer o mundo, mas que nem ao menos sabe por onde e como começar. Andar com os cabelos ao vento, uma mochila nas costas e pegando carona, só os hippies fazem isso?
Já visitei lugares legais, mas não chega nem perto do que ainda tenho vontade de ver. Egito, Índia, Indonésia, México, França, China, Itália e Canadá são apenas alguns destinos, mas seria preciso um alto investimento, o que restringe as possibilidades dos brasileiros, por causa das taxas de cambio. É uma pena, mas não custa nada sonhar.
Enquanto nativos nem ao menos conhecem o lugar onde vivem, “forasteiros” olham tudo. Até um tempo atrás, nunca quis conhecer o exterior, mas agora as fronteiras brasileiras parecem pequenas demais para a minha curiosidade, só que preciso antes apreciar o meu Brasil.
A cultura de certos lugares me impressiona, porque eles abrigam pessoas, costumes e desejos tão diferentes. Uns são mais simples, outros mais luxuosos e no final das contas o importante é mesmo aprender a viver em harmonia contínua.
Na música Esquadros, da cantora Adriana Calcanhoto, andar pelo mundo divertindo gente, chorando ao telefone e vendo doer a fome nos meninos que têm fome, sentir falta dos amigos, do amor e da família, seria o preço cobrado aos viajantes incautos. Essa letra reflete meus medos e desejos.
A natureza intocada por trás dos coqueiras, dunas, praias, um amor, essa sim é a combinação perfeita em dias de viagem. Quando se conhece alguém durante essas andanças dá uma saudade, vontade de ficar, emoções demais para quem gosta de viajar. Mas, nada é melhor do que ter a certeza de que quando voltarmos, alguém estará esperando por nós.