domingo, 16 de novembro de 2008

O corretor falador


- Esta cidade promete! Grandes investimentos estão sendo feitos aqui. É preciso aproveitar a especulação imobiliária e vender, vender. Assim, eu lucro, lucro hehehehehe. Você jovem Evan é um comprador em potencial. Com seus dólares canadenses faremos ótimos negócios, falava Lindolfo, enquanto passeava com seu cliente pelas praias de Fortaleza.
- É verdade, o investidor estrangeiro tem algumas vantagens aqui, mas tenho que analisar os riscos primeiro, retrucava o estudante canadense.
Evan Kasper viera do Canadá para o Brasil concluir sua tese de mestrado e apesar da jovialidade de seus 26 anos, entendia bem as intenções do corretor. Poliglota, agora o moço também falava português e seu corpo delgado e aspecto ingênuo, reafirmado em um rosto com traços finos e angelicais, onde repousavam mansamente seus olhos erverdeados e sua boca cálida, escondiam a sabedoria de um empreendedor.
Já Lindolfo Monteiro era um corretor de imóveis típico de cidades litorâneas do Nordeste brasileiro. Capitalista, tinha uma boa conversa e com sua voz firme, aliada ao seu poder de persuasão, levava qualquer um no papo. De baixa estatura, seu rosto bronzeado que evidenciava um sorriso sarcástico e um olhar crítico, já possuía algumas rugas, devido aos seus 36 anos. Mesmo fora do escritório e sob um sol escaldante, ele se vestia formalmente, usando camisa com mangas compridas e calça social.
Há oito anos ele atuava na profissão e sempre fechara grandes negócios com investidores brasileiros. Seria sua primeira experiência com um norte-americano, que pretendia comprar alguns lotes, próximos a uma área onde seria construído um resort, pertencente a portugueses. De acordo com o corretor, essa informação era privilegiada, já que a obra ainda iria começar. Logo de manhãzinha, ele chegava sem avisar na casa onde o moço estava alojado.
- Toc, toc, Evan sou eu. Vim aqui pra te levar na construtora, preciso que você assine uns documentos.
- É muito cedo ainda, reclamava o rapaz antes de abrir a porta.
- Meu garoto, os empreendimentos nos esperam, não podemos perder tempo. Vou te dar todas as orientações pra que tudo dê certo.
E lá ia o investidor tratar de negócios, vestido em sua bermuda tropical e camisa regata e calçando chinelos. Convencê-lo da magnitude da aquisição não estava sendo tarefa fácil. O corretor teria que se desdobrar, agradando o moço para que enfim, ele ajudasse a engordar seu salário.
Os dois seguiam no carro de Lindolfo, que rodava pra cima e pra baixo, dando toda assistência ao cliente.
- O carro é fundamental pra o seu trabalho, não é?
- Claro, sem ele eu não sou nada. A propósito, vamos falar mais sobre a possibilidade de você me conseguir uns clientes. Você conhece imobiliárias canadenses?
- Claro, minha tia é corretora em Toronto, tenho também alguns amigos, vou entrar em contato com eles.
Sim, sim eu posso dar toda assessoria a eles. Vou buscar no aeroporto, mostro a cidade, as grandes obras, vamos lucrar abrindo uma sociedade Evan, voaremos alto. Assim como eu, você também sabe ganhar dinheiro.
Eles passavam quase todas as manhãs juntos, resolvendo coisas no banco, na construtora, e depois saiam para almoçar. Quanta presteza daquele corretor, só que o canadense contestava tudo: Preço do metro quadrado, valorização da área, transferências bancárias etc. Evan era sincero, falava mesmo quando não gostava de alguma coisa, mas Lindolfo era persistente.
- Fico um pouco preocupado com a conversão do meu dinheiro, tenho que analisar se perderei alguma coisa.
- Não se preocupe garoto, eu resolvo tudo! O problema é que o banco tem umas burocracias.
- Está vendo aquele terreno? na copa de 2010 ele vai se transformar em um grande estacionamento, dizia o corretor, enquanto passava próximo a um estádio de futebol.
- E o tamanho desse lugar, eu só precisaria dele pra ficar rico. Ótima localização e espaço, comentava ele, se referindo ao terreno onde estava localizada a base aérea da cidade.
Lindolfo enxergava coisas que as outras pessoas talvez não viam. Era capaz de imaginar condomínios em terrenos baldios e hotéis em campos de futebol. Fanático por empreendimentos, ele tinha mesmo vontade de ser dono de uma construtora.
Evan era desconfiado e gostava de uma segunda opinião, visto que consultava advogados e outros corretores, para poder fechar o negócio e foi em uma manhã ensolarada de terça-feira, que após algumas transações bancárias, o rapaz ligou para Lindolfo.
- Oi, vamos fechar, o dinheiro já está liberado. Agora é contar com a valorização dos terrenos.
- Com certeza garoto e já tenho novas propostas pra você. Estou vendendo uns apartamentos e quero que você dê uma olhada. Vou mandar as propostas pra o seu e-mail e mais tarde passo aí.
- Vamos por partes, porque eu já comprei os lotes.
- Eu tenho uns planos especiais pra você. Agora que você fez a primeira compra nunca mais te deixarei em paz hehehehe, dizia Lindolfo que estava feliz da vida com a venda lucrativa.

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