sábado, 6 de dezembro de 2008

A mística Serra da barriga


Na trilha rumo ao platô, a poeira não deixa os pés ficarem limpos e o sol escaldante molha de suor as roupas. Ao longo do percurso encontramos laranjeiras, com frutas madurinhas e limas, daquelas bem docinhas. Subir a Serra da Barriga - na cidade alagoana de União dos Palmares - rumo ao Quilombo dos Palmares não é tarefa fácil. Uns dizem que ônibus grandes não chegam, porque o acesso é ingrime, então, o jeito é ir de van ou carro.
A expedição de jornalistas, professores e estudantes se deu em comemoração a um ano de atuação da Comissão de jornalistas pela igualdade racial (Cojira/Al) e em pleno mês da consciência negra fomos presenteados com uma visita inesquecível ao maior símbolo de resistência negra do mundo. A curiosidade de todos era o fator comum e admirados com o misticismo do lugar, guardávamos, através de câmeras fotográficas e da memória, cada pedacinho da serra.
Árvores centenárias foram as únicas testemunhas do confronto pela liberdade e fincadas em solo sagrado, protegem os que ali pisam, se balançando e emitindo sons por vezes confundidos com lamentos. Elas protestam pela condenação a qual foram submetidas há séculos: a impossibilidade de contar o que presenciaram.
Na região, artefatos indígenas revelam a identidade de guerreiros tupinambás, que junto com os negros ergueram suas lanças em busca da libertação. A 500 metros acima do nível do mar, o oxigênio parece acabar em alguns momentos. Senti uma coisa estranha à medida que andava, meu nariz começou a arder e tive uma leve tontura. Mas, a vontade de conhecer aquela terra me fez melhorar aos poucos.
De acordo com um documento do século XVII, de autor desconhecido “Palmares, então terra selvagem e desabitada, surgiu aos olhos dos negros apavorados como a única fuga possível. Um sítio naturalmente áspero, montanhoso e agreste, com tal espessura e confusão de ramos que em muitas partes é impenetrável a toda luz; a diversidade de espinhos e árvores rasteiras serve de impedir os passos e intrincar os troncos”.
O quilombo é considerado o maior das Américas, ocupando uma área que corresponde a 10 mil metros e já teve mais de 20 mil habitantes, o que o levou a ser reconhecido como nação pela Coroa Portuguesa. Lá, negros, índios, mestiços e brancos renegados pela cultura portuguesa tinham leis, língua, cultura e economia próprias e os vestígios dessa história ainda são evidentes no povoado negro de Muquém, apontado como de descendência palmarina. Infelizmente, os habitantes de lá desconhecem sua origem por causa de estórias contadas pelos brancos e não admitem que tiveram um antepassado que viveu nas senzalas do Brasil colonial, mesmo tendo pele escura e olhos claros.
Durante oito décadas, os portugueses tentaram desmanchar o quilombo. Liderados por Zumbi, negro nascido em Palmares e criado até os 15 anos pelo padre português Antônio Melo, na cidade de Porto Calvo, os quilombolas inauguraram a guerrilha no Brasil. Foi em uma área conhecida como Cerca Real dos Macacos, que na madrugada do dia 6 de fevereiro de 1694 aconteceu uma das mais sangrentas batalhas pela liberdade no continente.
Mas, recoberta por um verde estonteante a vista lá do alto continua belíssima e é possível perceber gente chegando ao longe, basta ir a um dos quatro mirantes, antigamente chamados de atalaias, que serviam para ver previamente os inimigos. Apesar do isolamento, a morada parece boa para alguns, já que cerca de dezenove famílias - que não são tidas como descendentes de quilombolas - vivem lá, e com o turismo transformaram suas próprias casas em estabelecimentos comerciais e contam e vivem histórias assustadoras e engraçadas, como uma que escutei do guia.
Um parente de um morador se irritou com o nome da lagoa e começou a dizer que o lugar era amaldiçoado. Após falar asneiras, a sua moto não queria sair do lugar e com muito esforço ele chegou em casa assustado, pedindo ajuda e dizendo que estava sangrando, pois fora atacado por dois negros que o furaram com facões. O homem não tinha nada e acabara de ter alucinações. Tem também a lenda de uma serpente, que desce até a lagoa às seis horas da tarde para beber água, por isso depois desse horário ninguém chega lá.
Existem pessoas que vêem mulheres lavando roupas á beira da lagoa e homens afiando suas lanças. Outras, assim como eu, ouvem vozes femininas se lamentando e homens tocando berimbau e cantando ladainhas de capoeira ou até mesmo se arrepiam, com a presença de almas centenárias.
Isso geralmente acontece na Lagoa dos Negros, que tem uma árvore sagrada para as populações africanas e conhecida como Odam. Conta a história que uma gameleira, hoje com mais de 300 anos, foi levada para lá pelos palmarinos, onde eles faziam suas rezas e oferendas aos orixás. Afirmam ainda, que se ela morrer a lagoa seca, já que embaixo da árvore fica a fonte mais forte de onde brota a água. Para chegar até lá tivemos que descer por trilhas de barro e nem dá para imaginar que encontraríamos tanta beleza.
Ouve uma época em que acreditavam que o líder Zumbi enterrara um tesouro no quilombo, por volta dos anos 70 e começo dos 80. Usavam explosivos e tratores para procurar o ouro do guerreiro. Hoje, a Serra da Barriga é tombada e um patrimônio da humanidade.
Os orixás ainda protegem a serra, a capoeira mantém viva a luta por liberdade, a lagoa dos negros e a gameleira preservam a energia dos quilombolas. Eles continuam ali, não podem ser vistos por todos, mas vêem cada um e ainda sonham e clamam por um mundo sem preconceitos, opressão e desigualdades.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

O menino das sandálias


Eu estava no Centro da cidade e voltava de ônibus para casa, depois de uma reunião no Sindicato dos jornalistas. Enquanto os passageiros se amontoavam – alguns jogando suas sacolas, bolsas e até carteiras de identidade nas cadeiras, para garantir o lugar – eis que uma pessoa sobe sem pagar a passagem.
Por uma das janelas alguém joga dois pares de sandálias, ainda com os cabides usados para mostrá-las na vitrine. De repente, um corpo magro e pequeno coloca os braços para dentro, se pendura e se espreme, até entrar, passando por cima de um homem e de uma mulher que estavam sentados próximos.
Demora alguns segundos, até que percebam que é um menino, com cerca de 12 anos e jeito de homem. Com cabelos loirinhos e meio despenteados, ele parecia drogado, vestia roupas surradas e tinha os pés descalços, já que as sandálias eram femininas e não serviriam. Quando o ônibus começou a andar ele se abaixou, rindo e se orgulhando do que tinha acabado de fazer.
A alguns metros dali, homens corriam e dois carros da polícia vinham atrás, mas o trânsito intenso não deixou que eles se aproximassem e todos sabiam o que havia acontecido. Uma policial que estava na parada de ônibus ignorou a cena, já que se tratava de uma criança, que certamente apanharia e seria liberada, voltando ás ruas.
“Eu roubei mesmo, a gente pede e ninguém dá. Entrei na loja, peguei e corri, aí os homens vieram atrás e não pegaram. Eu não gosto de roubar gente no ônibus, não pego celular, prefiro as lojas, como a Cea e o Hiper, porque tem dinheiro", contava o pequeno ladrão.
Todos se entreolharam, abismados, até que uma mulher que estava perto dele indagou: “Ai você rouba e te pegam e você apanha e depois faz o quê?E se depois você morrer?
Normalmente, ele respondeu: “Aí eu apanho e sou solto, faço de novo, eu vou ser assim pra sempre, se morrer enterra, isso é besteira. Minha mãe é tão pobre, mas minha tia é rica, ela nem liga pra gente”.
A passageira rebateu: “Se sua tia é rica por que você não vai roubar ela?Você vai ser enterrado se tiver caixão, né?Porque nem isso vai saber se tem.
“Eu vou bem roubar minha família?Tenho que roubar os outros, até o dia em que morrer e nem sei se vai ter caixão. Eu sou assim, ás vezes me dá uma doida e eu saio por aí, nem ligo”, ironizava ele.
O ônibus já havia se afastado bastante do local do furto e nenhuma viatura da polícia o interceptou. Foi aí que o menino deu sinal para descer, colocando as sandálias embaixo da camisa – uma na parte da frente e a outra atrás – agradecendo. Ao ser perguntado sobre o que faria com elas e se tinha medo de ser pego, ele foi enfático: “São sandálias de mulher, vou vender. Viatura de polícia pra mim é táxi”.
Esse é o retrato da nossa sociedade, que cultiva marginais e que no futuro, poderão matar para roubar. Porém, não adiantaria punir sem atacar o cerne do problema, ou seja, o cumprimento dos direitos básicos do cidadão, como educação e alimentação.
A banalização de espisódios como esse reforça a idéia de que vivemos sob um sistema falido e cheio de desigualdade, que enterra nossa esperança de dias melhores. As drogas populares (Cola e maconha) já fazem parte do cotidiano e as pesadas (Crack e cocaína) podem ser compradas facilmente.
Se ricos roubam e não são presos por que um pobre, que não tem o que comer não pode roubar? Imagine se as milhares de pessoas oprimidas pela fome fizessem isso? O garoto deve pensar assim e será que um dia o verei novamente?Com uma arma na mão ele poderia levar meus bens e até me matar, só não conseguiria reaver a dignidade que lhe fora roubada.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Doar sangue faz bem


Quando quiser fortalecer e purificar o coração, enchendo sua vida de energias positivas, basta fazer uma doação de sangue. Esse foi o gesto de amor que pratiquei hoje e pela primeira vez poderei compartilhar minha vitalidade com outras pessoas, visto que neste 25 de novembro comemoramos o dia nacional do doador.
Imaginar que meu sangue O+, apressado e forte vai pulsar nas veias de alguém chega a ser emocionante. A decisão foi rápida, vi uma faixa na rua e fui até o Hemocentro de Alagoas (Hemoal), onde é necessário apresentar um documento com foto e preencher um cadastro, para pegar a senha.
Após isso, uma mulher vestida em um jaleco pergunta seu peso e altura. Logo, ela está furando o dedo do futuro doador com um tipo de grampeador – que dói um pouquinho – e colocando o sangue em dois tubinhos finos, que servirá para a realização de exames posteriores de Sífilis, Hepatite B e C, Aids, Doença de chagas e HTLV I e II.
Cinco minutos depois o número da senha é chamado e é preciso falar com um médico, que mede sua pressão arterial, o pulso, a temperatura e faz perguntas intímas para avaliar os antecedentes patológicos e os possíveis fatores de risco do doador, pois para estar ali tem que cumprir certas exigências.
O voluntário ou voluntária não pode estar gripado, ter tatuagens e piercings há menos de um ano, estar grávida ou amamentando, ter ingerido bebida alcoólica 12 horas antes da doação, ter parceiros que fazem hemodiálise e que tenham recebido transfusão ou sejam portadores de hepatite B ou C, Aids, e HTLV I e II.
Além desses pré-requisitos a pessoa tem que estar com saúde, ter entre 18 e 65 anos, ter se alimentado e dormido pelo menos 6 horas antes, sem falar no intervalo de doação que para o homem é de 2 meses e para a mulher de 3 meses. Nada que a honestidade não supere, porque para doar é preciso ter responsabilidade.
É chegado o momento de entrar na sala de coleta, dá medo ao pensar que durante aproximadamente 20 minutos você terá que ficar apertando uma espécie de bolinha, como se bombeasse seu sangue, mas no fim não dá hemorragia e mesmo com a pressão um pouco baixa tudo fica bem.
Ainda existe uma escassez de doadores em todo o Brasil, porque mesmo com as inúmeras campanhas poucos voluntários se mobilizam. Isso pode inviabilizar procedimentos médicos, como no caso de pessoas que fazem quimioterapia e que se não receberem o suporte de transfusão podem não resistir ao tratamento. Além disso, a falta de doações implica no adiamento de cirurgias cardíacas, transplantes de rim, de fígado, medula óssea entre outros, que necessitam de sangue e de plaquetas.
Todo material utilizado é descartável e os mitos devem ser superados, já que o procedimento não afina nem engrossa o sangue, não engorda nem emagrece e não vicia. Agora, estou cadastrada como doadora e isso é maravilhoso, porque com um simples gesto poderei salvar até quatro vidas, uma vez que o material é separado em diferentes hemocomponentes, que são o concentrado de hemácias (glóbulos vermelhos), concentrado de plaquetas, plasma e crioprecipitado. É preciso lembrar que qualquer um pode precisar de sangue, inclusive aquele que deixa o estoque dos hemocentros vazio, por medo ou ignorância.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

O negro no poder



No 20 de novembro comemoramos o dia nacional da consciência negra, data histórica, principalmente para os alagoanos, já que ela marca a morte do líder negro, Zumbi - que lutou pela liberdade no quilombo da Serra da Barriga, na cidade de União dos Palmares, para onde os escravos fugidos iam. Sua guerra era justa e foi capaz de despertar a ira dos poderosos da capitania de Pernambuco, que expuseram sua cabeça em uma praça, achando que eram vitoriosos.
Hoje, representamos 50% da população brasileira, ou seja, são 90 milhões de negros e pardos e depois de tanto tempo a batalha ainda é travada dia-a-dia e o legado do guerreiro mantém viva a esperança daqueles que querem ser libertos, não mais dos grilhões supostamente quebrados pela lei áurea, mas do preconceito e da desigualdade que enfrentam em pleno século XXI.
Os quilombolas vivem hoje, só que em novos rostos e sob diferentes formas de opressão. Alguns têm pele escura e olhos azuis – fruto da miscigenação – e também a cara da fome e da desilusão. Continuam fragilizados e parece impossível devolver o que lhes fora roubado, tamanha é a dívida que a humanidade tem para com eles.
Mesmo depois de libertos os negros não tinham emprego, já que acreditavam que eles não eram qualificados para a nova forma de trabalho. Logo, foram facilmente substituídos por europeus, a população estava se multiplicando e queriam um país embranquecido. Como se enganaram, fizeram nascer um país de tantas cores e culturas, capazes de alimentar o desejo de dias melhores.
“Um negro a serviço dos brancos” é o que dizem a respeito do presidente recentemente eleito nos Estados Unidos (Eua), Barack Obama, que desbancou o candidato republicano, John McCain, um branco bem sucedido, estereótipo de um presidente digno para uma potência mundial.
Obama dá vida à utopia de ter um negro no poder, já que a cor da sua pele lembra uma luta que está para além da política. Como seria possível elegê-lo, em um país massivamente racista, berço de organizações como o Ku Klux Klan? A ascensão do presidente mostra que a igualdade de direitos que nos foi roubada já está para além do sonho. Será que se Martin Luther King estivesse aqui acreditaria que a mentalidade sobre a questão racial mudou?
No entanto, ainda estamos nas periferias e favelas - senzalas da vida contemporânea -sem emprego, educação, saneamento e dignidade. Não somos coitadinhos e sim injustiçados, por isso me pergunto se existe diferença entre um negro pobre e um negro rico e descubro que a questão é mais complexa do que a falta de igualdade nas oportunidades.
Qualquer negro que chega ao poder – nas suas inúmeras variações - é cruelmente criticado, logo acusado de prestar serviços aos que antes lhe escravizava, e por que não teria legitimidade para tomar suas próprias decisões?
Independente da classe social e do lugar que ocupa, somos vistos com indiferença, que toma forma até em brincadeiras despretensiosas e não importa se estamos falando de um morador de rua, de um ídolo de futebol ou do ministro da cultura.
Até na gramática e nas cores percebemos as contradições entre o preto e o branco. Afinal, por que a magia ruim é a negra? Por que uma desgraça engraçada é humor negro? Por que o gato preto dá azar?Por que o branco é paz e o negro é morte? Por que dia de trabalho é dia de branco?Qual o racista que determinou essas coisas?
Esses detalhes estão implícitos em nossa cultura - embora ela seja tão misturada - e ás vezes eles vêm à tona, devido à hipocrisia cultivada há anos e ainda regada nos dias de hoje, que culminou com a destituição de reinos africanos, em nome do desenvolvimento de outras terras.
Procuram remediar o problema mostrando o negro de relance e falando dele nas estrelinhas, como se até hoje não fosse vítima da desigualdade. Nas novelas continuamos na cozinha, limitados a servir os brancos e nos programas de tv nunca somos apresentadores. As crianças não querem bonecas escuras, porque são vistas como estranhas e o branco já é a cor predominante.
Dão asas à idéia de que os negros são feios e até eles nutrem essa premissa, não se identificam com o que é tido como belo, quando na verdade são apenas diferentes, lindos e cheios de graça em suas características.
O fato é que o negro só é bonito em seus guetos, como no carnaval de Salvador e do Rio de Janeiro, que exibe nas escolas de samba belas mulatas. Músicas afro são lindas apenas em terreiros de macumba e em rodas de capoeira – Criada pelos africanos e praticada por gente de todo o mundo – a religião foi usurpada pela igreja e passou a ser coisa do demônio, mas para quê besta maior do que aquela que abusa de crianças?
A instrução dada por alguns pais influi na liberdade de pensamento dos pequenos, reproduzindo costumes racistas, já que para mim, a questão está diretamente ligada à educação. Porém, não dá para acreditar que quanto mais instruída, menos preconceituosa uma pessoa será.
Ninguém admite que tem preconceito, isso não é coisa para se dizer publicamente, só que basta ver alguém usando dread lock ou qualquer outro penteado afro e até um médico ou advogado “de cor” para que ele se manifeste. Se hoje os negros vão á escola e se profissionalizam, antes os homens só faziam serviços braçais e as mulheres serviam para satisfazer os desejos dos senhores de engenho, que as engravidavam e vendiam seus próprios filhos.
Temos sim muito a comemorar, porque a cada ano a esperança se renova, lembrando que a luta dos quilombolas de Palmares não foi em vão. Mas, é preciso saber que o 20 de novembro não deve ser visto apenas como um marco da negritude, e sim, como uma reflexão para cada pessoa, já que é ao longo dos dias e com a ajuda de todos que a história deve ser reescrita. Existirá um lugar onde não haverá distinção entre negros e brancos, pois lá existirão seres humanos, independente da cor da sua pele, porque o espírito é transparente.

domingo, 16 de novembro de 2008

O corretor falador


- Esta cidade promete! Grandes investimentos estão sendo feitos aqui. É preciso aproveitar a especulação imobiliária e vender, vender. Assim, eu lucro, lucro hehehehehe. Você jovem Evan é um comprador em potencial. Com seus dólares canadenses faremos ótimos negócios, falava Lindolfo, enquanto passeava com seu cliente pelas praias de Fortaleza.
- É verdade, o investidor estrangeiro tem algumas vantagens aqui, mas tenho que analisar os riscos primeiro, retrucava o estudante canadense.
Evan Kasper viera do Canadá para o Brasil concluir sua tese de mestrado e apesar da jovialidade de seus 26 anos, entendia bem as intenções do corretor. Poliglota, agora o moço também falava português e seu corpo delgado e aspecto ingênuo, reafirmado em um rosto com traços finos e angelicais, onde repousavam mansamente seus olhos erverdeados e sua boca cálida, escondiam a sabedoria de um empreendedor.
Já Lindolfo Monteiro era um corretor de imóveis típico de cidades litorâneas do Nordeste brasileiro. Capitalista, tinha uma boa conversa e com sua voz firme, aliada ao seu poder de persuasão, levava qualquer um no papo. De baixa estatura, seu rosto bronzeado que evidenciava um sorriso sarcástico e um olhar crítico, já possuía algumas rugas, devido aos seus 36 anos. Mesmo fora do escritório e sob um sol escaldante, ele se vestia formalmente, usando camisa com mangas compridas e calça social.
Há oito anos ele atuava na profissão e sempre fechara grandes negócios com investidores brasileiros. Seria sua primeira experiência com um norte-americano, que pretendia comprar alguns lotes, próximos a uma área onde seria construído um resort, pertencente a portugueses. De acordo com o corretor, essa informação era privilegiada, já que a obra ainda iria começar. Logo de manhãzinha, ele chegava sem avisar na casa onde o moço estava alojado.
- Toc, toc, Evan sou eu. Vim aqui pra te levar na construtora, preciso que você assine uns documentos.
- É muito cedo ainda, reclamava o rapaz antes de abrir a porta.
- Meu garoto, os empreendimentos nos esperam, não podemos perder tempo. Vou te dar todas as orientações pra que tudo dê certo.
E lá ia o investidor tratar de negócios, vestido em sua bermuda tropical e camisa regata e calçando chinelos. Convencê-lo da magnitude da aquisição não estava sendo tarefa fácil. O corretor teria que se desdobrar, agradando o moço para que enfim, ele ajudasse a engordar seu salário.
Os dois seguiam no carro de Lindolfo, que rodava pra cima e pra baixo, dando toda assistência ao cliente.
- O carro é fundamental pra o seu trabalho, não é?
- Claro, sem ele eu não sou nada. A propósito, vamos falar mais sobre a possibilidade de você me conseguir uns clientes. Você conhece imobiliárias canadenses?
- Claro, minha tia é corretora em Toronto, tenho também alguns amigos, vou entrar em contato com eles.
Sim, sim eu posso dar toda assessoria a eles. Vou buscar no aeroporto, mostro a cidade, as grandes obras, vamos lucrar abrindo uma sociedade Evan, voaremos alto. Assim como eu, você também sabe ganhar dinheiro.
Eles passavam quase todas as manhãs juntos, resolvendo coisas no banco, na construtora, e depois saiam para almoçar. Quanta presteza daquele corretor, só que o canadense contestava tudo: Preço do metro quadrado, valorização da área, transferências bancárias etc. Evan era sincero, falava mesmo quando não gostava de alguma coisa, mas Lindolfo era persistente.
- Fico um pouco preocupado com a conversão do meu dinheiro, tenho que analisar se perderei alguma coisa.
- Não se preocupe garoto, eu resolvo tudo! O problema é que o banco tem umas burocracias.
- Está vendo aquele terreno? na copa de 2010 ele vai se transformar em um grande estacionamento, dizia o corretor, enquanto passava próximo a um estádio de futebol.
- E o tamanho desse lugar, eu só precisaria dele pra ficar rico. Ótima localização e espaço, comentava ele, se referindo ao terreno onde estava localizada a base aérea da cidade.
Lindolfo enxergava coisas que as outras pessoas talvez não viam. Era capaz de imaginar condomínios em terrenos baldios e hotéis em campos de futebol. Fanático por empreendimentos, ele tinha mesmo vontade de ser dono de uma construtora.
Evan era desconfiado e gostava de uma segunda opinião, visto que consultava advogados e outros corretores, para poder fechar o negócio e foi em uma manhã ensolarada de terça-feira, que após algumas transações bancárias, o rapaz ligou para Lindolfo.
- Oi, vamos fechar, o dinheiro já está liberado. Agora é contar com a valorização dos terrenos.
- Com certeza garoto e já tenho novas propostas pra você. Estou vendendo uns apartamentos e quero que você dê uma olhada. Vou mandar as propostas pra o seu e-mail e mais tarde passo aí.
- Vamos por partes, porque eu já comprei os lotes.
- Eu tenho uns planos especiais pra você. Agora que você fez a primeira compra nunca mais te deixarei em paz hehehehe, dizia Lindolfo que estava feliz da vida com a venda lucrativa.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Viajar é preciso...

Arrumando as malas para viajar durante o final de semana percebi como tenho roupas que não uso. Elas estão amontoadas no guarda-roupas e muitas eu nem lembrava que existiam. São blusas que estão grandes ou pequenas demais, saias e calças que caem só de eu pensar em vesti-las e o mais curioso é que dá vontade de levar só o que é novo, apesar de nem todos conhecerem meu figurino.
Os homens podem carregar consigo uma mochila com poucas camisas, duas calças, um chinelo e um tênis, dependendo do lugar onde vão e do tempo que lá irão ficar. Já as mulheres presumem combinações mirabolantes, que abarrotam as malas e que muitas vezes voltam sem nem terem saído delas. É maquiagem, bijuteria, sandálias e demais acessórios, só para não falar em vaidade.
É difícil evitar exageros, pode haver alguma programação para a qual não teremos o traje ideal. Antes de viajar, costumo ter um sonho estranho, onde eu nunca levo as roupas certas para a ocasião e acabo não saindo. Logo, minha bagagem tem de biquínis a vestidos, afinal, nunca se sabe. Um livro, meus óculos de grau e meu celular, eis companheiros fiéis durante qualquer aventura.
Viajar é sempre revigorante, não que a gente esqueça os problemas, mas eles parecem mais distantes da estrada. Porém, o nosso lar faz falta, por mais lindo que seja o lugar que visitemos. Conhecer aquilo que vimos apenas na tv ou na Internet é bem emocionante e chocante, porque não tem só beleza, em tudo existe um lado triste; Uns trabalham para outros se divertirem.
Tem gente que vive de viajar, dando a volta ao mundo em um barco ou balão. Maluquice para uns e uma idéia maravilhosa para mim, só que as responsabilidades da vida moderna não permitem. É uma questão de escolhas, ou você trabalha ou vive conhecendo lugares, a não ser que planeje bem suas férias anuais. Sair por aí sem destino agrada e até rende dinheiro, com a publicação de livros que relatam as aventuras. Quem sabe eu faço isso.
Tem gente que nunca saiu do lugar onde nasceu, não conhece outra realidade, por culpa dessa má divisão econômica. Eu me classifico como aquela pessoa que tem vontade de conhecer o mundo, mas que nem ao menos sabe por onde e como começar. Andar com os cabelos ao vento, uma mochila nas costas e pegando carona, só os hippies fazem isso?
Já visitei lugares legais, mas não chega nem perto do que ainda tenho vontade de ver. Egito, Índia, Indonésia, México, França, China, Itália e Canadá são apenas alguns destinos, mas seria preciso um alto investimento, o que restringe as possibilidades dos brasileiros, por causa das taxas de cambio. É uma pena, mas não custa nada sonhar.
Enquanto nativos nem ao menos conhecem o lugar onde vivem, “forasteiros” olham tudo. Até um tempo atrás, nunca quis conhecer o exterior, mas agora as fronteiras brasileiras parecem pequenas demais para a minha curiosidade, só que preciso antes apreciar o meu Brasil.
A cultura de certos lugares me impressiona, porque eles abrigam pessoas, costumes e desejos tão diferentes. Uns são mais simples, outros mais luxuosos e no final das contas o importante é mesmo aprender a viver em harmonia contínua.
Na música Esquadros, da cantora Adriana Calcanhoto, andar pelo mundo divertindo gente, chorando ao telefone e vendo doer a fome nos meninos que têm fome, sentir falta dos amigos, do amor e da família, seria o preço cobrado aos viajantes incautos. Essa letra reflete meus medos e desejos.
A natureza intocada por trás dos coqueiras, dunas, praias, um amor, essa sim é a combinação perfeita em dias de viagem. Quando se conhece alguém durante essas andanças dá uma saudade, vontade de ficar, emoções demais para quem gosta de viajar. Mas, nada é melhor do que ter a certeza de que quando voltarmos, alguém estará esperando por nós.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Marido fujão


- Ei Joaquinaaaaa, venha sentar aqui, que surpresa encontrar você. São seus filhos? Tão uns “rapaizinhos” e esse novinho, teve quando?Pensei que você não tivesse mais morando em Maceió.
- Pois Geraldina eu moro em São Luiz e vim aqui na casa dos parentes do pai deles.
- Vixe, você mora no Maranhão é?nem sabia.
- É em São Luiz do Quitunde, fim de mundo danado!
- E de onde você vem e aonde você vai?
- Eu cheguei agora da rodoviária, olha as minhas malas e ainda tenho esses três aqui pra atrasar a minha vida.
Com um loiro oxigenado em seus cabelos ondulados, Joaquina aparentava ter seus 25 anos e já era mãe de três meninos. Tinha um rosto cansado e a pele bronzeada, nunca trabalhou e vivia apenas para o marido e os filhos.
Geraldina, com seus 35 anos nunca teve filhos, apesar de ter sido casada. Ela era cozinheira em um restaurante e agora solteira, morava sozinha. Depois de cinco anos as amigas se reencontraram dentro de um ônibus e começaram a falar sobre suas desilusões amorosas.
- Mas você tá casada ainda Joaquina?Cadê teu marido?
- Vim procurar aquele safado. Até dois dias atrás eu tava, quer dizer ainda tô, mas pra falar a verdade não sei mais de nada.
- Que foi?Brigou com ele?
- O sem-vergonha saiu de casa sem dizer nada faz dois dias, nem sei se tá vivo ainda. Aí trouxe os meninos, vim procurar ele. Acho que o desgraçado tá na casa da outra.
- Que outra?Ele tem outra família?
- A outra que teve um filho dele, o infeliz ainda sai por aí fazendo menino. Ela mora perto da casa da minha sogra, acho que o neném nasceu e ele veio dar assistência, cabra safado!
- E o que você vai fazer?Esse teu menino tem um ano já?Parece com você.
- Vou chegar lá quebrando tudo, não vai restar nada pra contar a história. Se o desgraçado não quiser voltar comigo deixo esses dois com ele e só fico com esse que tem um ano e seis meses.
- Que situação, você sabe onde vai descer?
- Mulher, sei que é perto de uma associação, o cobrador vai dizer quando chegar.
- E tu Geraldina tá casada?Se for pra ficar com esses “tipinho de homi” é melhor ficar só!
- Me separei, já tem dois anos, também fui traída, mas agora tô em paz.
- E você não sente solidão?Deve ser ruim não ter com quem dividir a vida.
- Quando me sinto só me pego com Deus e peço pra ele tirar os pensamentos ruins da minha cabeça. Quero que ele prepare uma pessoa pra mim.
- Você tá certa, se for um como o meu marido é melhor ficar só!
O cobrador de ônibus avisou que o ponto onde Joaquina iria descer já estava próximo, enquanto seus dois filhos mais velhos, um loirinho que chorava baixo e outro moreninho que sorria sem parar, se equilibravam entre as cadeiras.
- Rafael e Misael a gente vai descer, o que é que esse menino tem?Fica chorando sem parar.
- Ele tá com vontade de vomitar mainha, tá com vergonha.
- Oxe, vai fazer o que se tá com vontade, vomite aí mesmo.
O ônibus parou e as amigas se despediram, desejando boa sorte uma para a outra.
- Vou pegar aquele safado de jeito, isso é coisa que ele faça?E você tome cuidado com esses homens Geraldina.
- Pode deixar, boa sorte pra você também.
Enquanto descia, um dos garotos continuava chorando e foi pouco a pouco, espalhando seu vômito pelo corredor do ônibus.
- Vixe, que menino mais nojento, puxou o pai, disse a mãe ao descer.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

No mundo das mudanças


Estamos em constate movimento, inclusive os que apenas sobrevivem, passando pela vida de forma despercebida. No trabalho, na escola, nos finais de semana acontecem coisas novas para quem aproveita intensamente.
Uma cadeira que muda de lugar, um novo chefe ou colega de trabalho, aquele sanduíche que ontem era 1,00 e que agora está mais caro. É através de coisas simples que o mundo gira ao nosso redor. Porém, existem mudanças que são difíceis de aceitar, como o fim daquele relacionamento no qual você tanto investiu ou quando um amigo vai tentar a vida em outro lugar e principalmente se um alguém querido morre.
Minhas mudanças não cansam de acontecer. Mudo de roupa, de óculos, de esmalte, troco refrigerante por suco e cerveja por caipirinha, o coração se engana, corto ou pinto os cabelos, não quero ir mais a lugares que antes me faziam bem. Quando algo não faz mais sentido tenho que encontrar um novo rumo, não posso parar de realizar meus sonhos.
O recomeço desta vez será na academia que frequento. Está em um novo endereço, e continuar a frequentá-la ou procurar outra, implica em conhecer novas pessoas, o que não me interessa no momento. Queria sim, estar com os antigos colegas, com as mesmas resenhas e ter a satisfação de chegar e ver gente tão familiar, com quem convivi durante mais de dois anos. Parece uma coisa boba, pouco vai influir na minha vida, mas foi a partir daí que tive a certeza de que nada dura para sempre.
Sentimentos e emoções variam e embora eu não queira um cotidiano imutável, porque não aguentaria a rotina de me ser, a gente se acostuma com certas coisas. Sò que, meio sem querer, apaixona e desapaixona, sonha quando deveria realizar, chora ao invés de rir e assim percebo que a verdadeira mudança começa dentro de mim.
Imaginar que o que eu desejo hoje pode ser o contrário do que amarei amanhã é complicado. Por que não temos vontades únicas durante toda uma vida? Para isso, seria necessário um movimento de translação, ao invés de girar em torno de mim mesma eu precisaria dar voltas em torno de alguma luz. E se esse sol não existir e eu tiver que girar sozinha para sempre?
Penso em mudar de casa, de Estado e até de país. Me acovardo, apesar de já não existirem tantos motivos para que eu fique, a não ser minha grande família e meus poucos e bons amigos. Até agora isso tem sido suficiente.
Amo tanto minha liberdade de escolha que tenho até medo de usá-la e prefiro as trocas mundanas do que as minhas próprias, já que elas nem sempre me satisfazem completamente. A verdade é que a gente está sempre tentando substituir um vazio, que nasce das coisas que não fizemos e das decisões que não tomamos.
Me sinto um todo em meio a um vácuo. Prometi que viveria tudo o que quero, mas como vai ser depois?Minha existência parece limitada demais, receio não ter tempo. Quando eu paro em um porto, meu mecanismo inquieto provoca uma grande explosão. Eu vou ficar ou procurarei outro lugar para ir?Poderei, assim como um caramujo, levar minha casa nas costas?Ou apenas lembranças na cabeça?

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Domingo de sol


As pipas e os aviõezinhos de papelão do vendedor pairam no ar, num balé que encanta os "clientes", enquanto crianças bricam com bolas e enchem seus baldinhos com a areia molhada. Correm de um lado para o outro e choram se não lhes deixam entrar no mar. Pessoas passeam pela ponta d`areia em bicicletas, jogam vôlei e outras desfilam seus modelitos à la praia. Uns realmente exóticos e tem ainda, quem goste de exibir seu corpo sarado e tatuado.
Para entrar na moda, as meninas usam piercing no umbigo e quando passa um homem bonito e musculoso elas se agitam e se uma mulher com o corpão dá o ar da graça diante dos meninos nem se fala. Que absurdo!tem até cachorro fazendo suas necessidades em cima de um matinho.
Um grita de um lado: “Olha o camarão” e o outro rima a fala: “Olha o caldinho de feijão”. Os ambulantes vendem água de coco, casquinha de siri, sanduíche natural, pastel + suco por 1,00, quentinha, bronzeador, água oxigenada, cerveja, óculos, chapéu, queijo assado em um pequeno fogareiro feito com lata de leite, e até bichinho de pelúcia e esponja, mas quem usa isso na praia?
Na água, as jangadas vão e vêm geralmente com turistas, porque é difícil ver alagoanos embarcando nelas, já que preferem dar uns mergulhos e pegar aquele bronze. É possível identificar um visitante de longe, pois ele tem sempre uma câmera fotográfica pendurada no pescoço, usa chapéu e óculos escuros, além de roupinhas estranhas e até engraçadas e a pele é tão clara que fica logo vermelha.
Em bóias feitas com pneus, que são alugadas à beira-mar, os mais jovens ficam tranqüilos sobre as ondas, diante de casais protagonizando cenas de romance dentro d`água, será que estão só se beijando?
Alheio a tudo está um sol escaldante e o céu azul anil, com nuvens espessas que passam sobre nós, formando aquelas figuras engraçadas e ainda, os coqueirais que fazem sombra, depertando receio de que algum coco caia. Tem quem prefira se esconder do que está ao redor, ficando nos barzinhos apenas comendo, bebendo e ouvindo música ao vivo.
Os famosos farofeiros marcam presença, levam a família toda à praia e é claro, suas caixas de isopor com bebidas e muita comida, como frango com farofa, isso é clássico!Se tem muita gente fica mais barato levar de casa, porque os preços são um pouco salgados na praia.
Tem cadeiras, mesas, guarda-sol, tudo para alugar, só que algumas mulheres preferem forrar a canga na areia e deitar. "Embebidas" de bronzeador, torram no calor, querem ter a marquinha do biquíni e chegam até a dar um cochilo. Elas esquecem o filtro solar e ficam muito ardidas, dificilmente entram no mar, para não desarrumarem os cabelos.
As mais cheinhas geralmente usam maiôs, só que têm as que não se importam com a gordurinha e gostam mesmo de um fio dental, o que gera comentários sarcásticos. A maioria das mulheres usa biquínis bem pequenos e originais e os homens, bermudas e sungas que variam de tamanho. O chinelo é universal, porque ir à praia de salto, mesmo que baixo é desconfortável, os pés afundam na areia.
Podemos encontrar também os famosos "bifes à milanesa", que são pessoas que passam tanta coisa na pele que a areia cola até no rosto, à medida que o vento se agita ou quando as crianças correm e até se alguém sacode uma toalha.
Os aventureiros desfrutam dos esportes radicais, a exemplo do kitesurf, que utiliza uma pipa feita do mesmo material da asa-delta e uma prancha, que pode ser especial ou de surf. O tempo tem que estar favorável, porque gente já morreu praticando e afinal, onde estão os salva-vidas?
Mesmo com alguns esgotos que correm a céu aberto, o mar ainda é azul e esse é apenas mais um domingo de sol, porque na praia é assim, ricos e pobres, gordos e magros, bonitos e feios se encontram. Um espaço democrático como nenhum outro, só que ainda é possível perceber diferenças, que estão na forma de cada um se comportar e muitas vezes no espaço que ocupam na areia e no mar.

sábado, 25 de outubro de 2008

A África que a gente não vê na tv


É difícil imaginar a Àfrica para além de doenças e miséria. Principalmente para aqueles que têm a televisão como única fonte de informação.
A disseminação da idéia de que o continente é tão pobre a ponto de todos morrerem de fome povoa o imaginário de pessoas das mais diversas nacionalidades. Elas nutrem até um certo receio de se depararem com alguém que venha de lá.
Até os livros trazem consigo a marca desse preconceito, abordando apenas a África "animalesca" e dedicando pouco espaço para falar de sua cultura e é fato que os africanos nos trouxeram inúmeras contribuições.
No sangue brasileiro que é negro, na capoeira, nas comidas típicas e até em nosso vocabulário o espírito afro mantém-se vivo, apesar de matarem, pouco a pouco suas origens. Essa questão tem sido abordada durante a Semana de cultura africana, realizada no mês de outubro, simultâneamente ao Congresso acadêmico da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Lá, curiosos podem se familiarizar com as danças, os trages, as comidas e mais ainda com a história, repleta de contrasensos.
Com os olhos tão vivos e a pele pintada de luz, homens e mulheres africanos que vieram estudar no Brasil através do Programa de Estudante – Convênio de Graduação (PEC-G), que é uma cooperação entre os países de língua portuguesa, mostram sua graça e beleza, reafirmando sua identidade.
Ensinam os passos do Zouk e do Funaná, empolgando uma multidão, que será responsável pelo início da mudança na forma de "pensar África". De repente, descobrimos que a tv esconde o patrimônio daquele continente. Nos países africanos fala-se o português e lá as pessoas não dependem de animais para se locomoverem, nem tão pouco vestem trapos e morrem desnutridas.
Existe sim, pobreza até mais do que em outros lugares, mas não tão intensa a ponto de suprimir a vida que ainda é capaz de trazer esperança para as gerações futuras.
Espoliados durante séculos - antes reis e rainhas - os negros continuam sofrendo discriminação. Não é apenas uma questão de cor é algo mais implícito. Geralmente não procuramos conhecer aquilo que nos mostram através de um espelho, que reflete ideologias que pretendem continuar com a escravidão, só que ela se manifesta no pensamento.
Não fechemos os olhos para as desigualdades que se perpetuam em pleno século XXI entre negros de todos os países. Somos iguais, com nossos defeitos e qualidades porque afinal, África somos todos nós.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Esses estrangeiros...


Eles simplesmente amam o Brasil. Cada vez mais acredito que não é apenas pelas lindas mulheres das quais fazem tanta propaganda. Os europeus gostam mesmo do sol, do mar e do ar amistoso que os brasileiros têm. Alguns odeiam o frio e o fato de ficarem o ano inteiro com a pele clara.
Dependendo da cidade que visitam podem ser vistos como meros homens em busca de turismo sexual. Isso porque se um “gringo” visita uma capital nordestina, ele poderá encontrar atrativos diferentes dos que teria no Sudeste, já que existe todo um apelo sexual, principalmente para atraí-los a cidades litorâneas como Fortaleza, Salvador, Natal e Maceió.
Existem ainda, os que vêm mesmo com o intuito de fazer investimentos imobiliários, porque a moeda deles vale quase três vezes mais. Logo, se deparam com enormes desigualdades sociais que transformam o Brasil na terra do "pode tudo".
Ao contrário de alguns países europeus aqui as mulheres são tidas como fáceis e infelizmente é essa imagem, vendida pela mídia, que a maioria tem. A pobreza da população incentiva a violência e a prostituição e até as crianças aprendem o idioma para pedir esmolas.
Não que lá fora isso não exista, mas aqui tudo acontece às claras e sem limites. Um garoto com roupas sujas e pés descalsos disse a um italiano que estava em frente a um bar: “Um reale para mangiare”. De repente, percebi que Maceió já faz parte da rota estrangeira e isso tem prós e contras.
Após a abolição da escravatura, europeus foram trazidos ao Brasil para trabalhar nas lavouras. Implicitamente essa foi a forma encontrada para embranquecer a população, que até então era composta por muitos africanos. Pura hipocrisia!
Só que hoje é interessante como os estrangeiros que não têm muito dinheiro no país em que vivem podem vir aqui e desfrutar de uma vida de rico. Freqüentam os melhores lugares e gastam dinheiro por conta, além de conhecerem coisas que os próprios habitantes nunca viram.
Para um brasileiro ir à Europa é quase impossível. As passagens são caras, a entrada nesses países é difícil, sem contar que juntar um bom dinheiro não é suficiente, já que o real não vale muito, além de nossas fronteiras.
Quando os gringos vêm para cá são vistos como deuses. Tem muita mulher querendo fisgar um europeu, largar a vida pobre e ir embora com ele. Na maioria das vezes é isso que motiva a prostituição. Sem perspectivas, as garotas de programa buscam um príncipe encantado, capaz de mudar suas vidas. Eles também procuram aqui um grande amor e ás vezes acabam encontrando.
Em terras brasileiras esses turistas empregam valores altos demais para os nativos. Ir da Jatiúca até a praia do Francês pagando R$120,00 parece loucura, já que é possível conhecê-la embarcando em uma van saindo de Maceió, que cobra R$ 2,00.
Na verdade, quando as pessoas sabem que se trata de um turista internacional tendem a explorar mesmo, por pura má fé. Cobram caro e até dificultam o troco, além de empurrarem tudo quanto é besteira para eles comprarem.
A vida na Europa pode não ser tão próspera. Lá, o custo de vida é alto e é preciso trabalhar duro para conquistar um lugar ao sol. Arriscar é dar um salto rumo ao desconhecido, já que o caos também se instalou naquele continente. Mas, uma amiga alagoana que mora na Itália disse que mesmo com a crise mundial é melhor estar do lado de lá.
Pode ser, só que é preciso coragem para descobrir, e existem tantas contradições. Enquanto brasileiros querem encarar o frio e ganhar em euro, europeus dariam tudo para viver aqui e procuram manter cada vez mais vínculos com nosso Brasil.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Fato inesperado

Não bastasse a dor vivida pela família da adolescente Eloá, a polícia de Alagoas descobriu que o pai da menina é foragido da justiça desde 1993. O ex-cabo da Polícia Militar, Everaldo Pereira dos Santos fazia parte da gangue fardada, responsável por roubo de cargas e assassinatos no Estado.
Ele tem quatro mandados de prisão e esse foi o motivo da família alagoana ter se mudado para São Paulo. Segundo a polícia ele teria mudado o nome para Aldo José da Silva e é acusado de participar do assassinato do delegado Ricardo Lessa, irmão do ex-governador Ronaldo Lessa (PDT).
A Secretaria de Defesa Social de Alagoas não tem dúvidas de que se trata da mesma pessoa e solicitará uma força-tarefa conjunta com a polícia paulista, para que sejam realizadas buscas para efetuar a prisão.
O crime ocorreu em 1991, no bairro de Bebedouro, em Maceió. Além do delegado, foi morto também seu motorista Antenor Carlota. É muita coincidência e tristeza...

Doação de vida

Numa tarde de segunda-feira (13) a rotina mudou em um conjunto habitacional na periferia de Santo André, no ABC paulista. Em um dos apartamentos, quatro adolescentes foram feitos reféns.
A alagoana Elóa Cristina, a amiga Nayara - ambas de 15 anos - e mais dois colegas faziam um trabalho escolar, quando Lindemberg Alvez empreendeu o seqüestro, inconformado com o fim do relacionamento com Eloá.
Inicialmente os dois jovens foram liberados e posteriormente Nayara. Mas, a agonia da outra menina duraria 5 dias. O Brasil inteiro se mobilizou, fez orações, manifestou solidariedade, enquanto outros negociavam o fim de um dos seqüestros mais complexos do país.
Como parte das estratégias de negociação, Nayara voltou ao apartamento na manhã de quinta-feira (16). Porém, isso não foi capaz de sensibilizar o sequestrador, já que as duas foram feridas e Eloá teve morte cerebral na noite de sábado(18).
Mas, enquanto uma vida acaba outras ressurgem, graças à doação de órgãos. Para alguém viver, a menina teve que morrer e isso parece um ciclo injusto, pois milhares de pessoas esperam uma doação.
A questão envolve uma série de complexidades, porque há uma rede especializada em tráfico de órgãos, assunto pouco abordado pela mídia. São médicos e outros profissionais que podem agilizar a morte de alguém, caso saibam que se trata de um doador.
Tive notícias de um caso que aconteceu em um hospital de Maceió. Um homem faleceu e durante o velório, a família percebeu que saia um pó estranho de dentro dele. Ao olharem melhor, descobriram que se tratava de pó de serra e que sem dúvida tinham retirado seus órgãos sem que ninguém soubesse. Com medo, os parentes acabaram deixando isso pra lá, mas há grandes chances de seus órgãos terem sido negociados.
Na carteira de identidade a pessoa também pode se declarar doadora, só que me parece algo perigoso. Meu tio tem isso escrito em seu documento, mas disse que em nenhum momento fez a solicitação. Comentei o quanto isso é estranho, porque na pior das hipóteses, se ele chegasse a ser atendido em algum hospital poderiam manipular uma doação de órgãos.
Mas, esquecendo um pouco o lado trágico existe toda uma doação de vida, porque geralmente muitos órgãos são aproveitados, como coração e pulmão e isso é capaz de salvar adultos e crianças.
Pretendo doar meus órgãos, porque se Deus me levar muito cedo quero ter a sensação “morta” de que meu coração apaixonado pela vida, pulsa no peito de outra pessoa. Imaginar isso é estranho, afinal, ninguém quer morrer, só que não pretendo me declarar doadora no documento de identidade, prefiro deixar meu pedido apenas com meus familiares.
É triste saber que existem pessoas que negociam a vida e a morte e que nesses momentos, ter dinheiro é o fator fundamental para alguém viver. Parentes desesperados podem até tentar essa tática e ela tem terreno fértil nesse desespero e porque existem "clientes" potenciais. Meu Deus, quanto vale uma vida?

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração?

Ás vezes fico pensando como a gente pode gostar de pessoas tão diferentes de nós. Preferências completamente avessas, tipo de música nada a ver, forma particular de encarar as coisas. Será que os opostos se atraem? Para mim isso foi disseminado também para mascarar a premissa de que o homem é para a mulher e vice-versa.
Questionei-me sobre o compartilhamento das preferências depois de prestar atenção à música “Eduardo e Mônica”, do Legião Urbana, onde uma garota que faz medicina e que aparentemente é hippie se apaixona perdidamente por um garoto mais novo, que ainda está começando a vida.
Na realidade também funciona assim, só que à medida que descobrimos coisas em comum passamos a nos familiarizar com a pessoa, porque é tão bom e engraçado saber que existe alguém que gosta da sua comida preferida, daquela música que te deixa nas alturas, só que isso não basta.
Para muitos isso pode não ter graça nenhuma, porque é como se a outra pessoa não tivesse sua individualidade ou aderisse aos gostos do outro só para agradar. Logo, pode-se descobrir que duas pessoas “iguais” não dão certo juntas.
Sempre procuro pessoas parecidas comigo, mas estou casada de saber que cada um é único. Tem que haver um contraponto, já que um relacionamento precisa de doses de razão e emoção e seria monótono demais se ambos nunca se questionassem.
Amar é complicado demais ou somos nós que tornamos isso tão complexo? A verdade é que quando a gente se apaixona por alguém não desapaixona pelo simples fato da pessoa preferir biscoito de morango e você de chocolate ou por ela não querer ir para os lugares que você gosta ou até porque você curte reggae e ela forró.
Nem sempre a gente escolhe de quem vai gostar e é difícil saber se a pessoa vai nos corresponder, porque o sentimento envolve mais do que gostos em comum. A nossa outra parte, se é que ela existe, deve mesmo ter lá suas diferenças.
As pessoas procuram constantemente sua cara-metade e isso me lembra uma história da mitologia grega, que dizia que antes, existia uma criatura andrógina, que unia no mesmo corpo o masculino e o feminino. Esse ser mitológico desafiou os deuses e foi punido, separado de sua outra parte e condenado a procurar por ela. Como e onde vamos encontrá-la?
O amor é uma construção diária de amizade, confiança, compreensão e é claro, cumplicidade. É bom saber que o outro gosta do que você gosta, mas é ainda melhor saber que ele é capaz de trazer consigo o que não existe em nós. Afinal, já dizia Renato Russo: “Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão”?


Eduardo e Mônica (Legião Urbana)

Quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?
Eduardo abriu os olhos, mas não quis se levantar
Ficou deitado e viu que horas eram
Enquanto Mônica tomava um conhaque
No outro canto da cidade, como eles disseram...
Eduardo e Mônica um dia se encontraram sem querer
E conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer...
Um carinha do cursinho do Eduardo que disse:
"Tem uma festa legal, e a gente quer se divertir"
Festa estranha, com gente esquisita
"Eu não 'to' legal, não agüento mais birita"
E a Mônica riu, e quis saber um pouco mais
Sobre o boyzinho que tentava impressionar
E o Eduardo, meio tonto, só pensava em ir pra casa
"É quase duas, eu vou me ferrar..."
Eduardo e Mônica trocaram telefone
Depois telefonaram e decidiram se encontrar
O Eduardo sugeriu uma lanchonete,
Mas a Mônica queria ver o filme do Godard
Se encontraram então no parque da cidade
A Mônica de moto e o Eduardo de camêlo
O Eduardo achou estranho, e melhor não comentar
Mas a menina tinha tinta no cabelo
Eduardo e Mônica era nada parecidos
Ela era de Leão e ele tinha dezesseis
Ela fazia Medicina e falava alemão
E ele ainda nas aulinhas de inglês
Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus
De Van Gogh e dos Mutantes, de Caetano e de Rimbaud
E o Eduardo gostava de novela
E jogava futebol-de-botão com seu avô
Ela falava coisas sobre o Planalto Central
Também magia e meditação
E o Eduardo ainda tava no esquema "escola, cinema
clube, televisão"...
E mesmo com tudo diferente, veio mesmo, de repente
Uma vontade de se ver
E os dois se encontravam todo dia
E a vontade crescia, como tinha de ser...
Eduardo e Mônica fizeram natação, fotografia
Teatro, artesanato, e foram viajar
A Mônica explicava pro Eduardo
Coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar...
Ele aprendeu a beber, deixou o cabelo crescer
E decidiu trabalhar
E ela se formou no mesmo mês
Que ele passou no vestibular
E os dois comemoraram juntos
E também brigaram juntos, muitas vezes depois
E todo mundo diz que ele completa ela
E vice-versa, que nem feijão com arroz
Construíram uma casa há uns dois anos atrás
Mais ou menos quando os gêmeos vieram
Batalharam grana, seguraram legal
A barra mais pesada que tiveram
Eduardo e Mônica voltaram pra Brasília
E a nossa amizade dá saudade no verão
Só que nessas férias, não vão viajar
Porque o filhinho do Eduardo tá de recuperação
Ah! Ahan!
E quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Primo apaixonado

-Você tem que me ajudar!
-Preciso contar a uma menina que gosto dela, prima.
-É tão simples Túlio, basta você chegar pra ela e dizer: Eu gosto de você!
-Não é assim, porque acho que ainda gosto da minha ex-mulher.
-Se você gosta dela por que não voltam então?
-Não daria certo, será que é possível gostar de duas pessoas ao mesmo tempo?
-Ela foi o grande amor da minha vida e se namorar com outro eu morro!
-Quer dizer, não morro de verdade, mas meu coração vai ficar magoado.
Túlio e Clarissa namoraram durante sete anos e depois que casaram tiveram um filho e ficaram apenas um ano juntos. Através de um amigo ele ficou sabendo que foi traído, só que nunca teve a certeza. Terminaram o relacionamento e ela foi morar em outro estado.
Clarissa ligou, dizendo querer voltar, só que mesmo continuando apaixonado, Túlio disse que ela deveria continuar onde estava, porque seria melhor para ambos.
-Você teve certeza da traição dela?
-Não, mas todo mundo comentava, uma traição dói demais.
-Será que dói tanto assim?E se fosse você que tivesse ficado com outra? seria normal né?
-Isso é puro machismo, porque o homem pode e quando a mulher faz é a pior criatura do mundo?
-Se você a ama, essa traição deve ser perdoada.
-E se não der certo Lilian?Tenho medo do que as pessoas vão falar. Eu jurei que nunca voltaria pra ela!
-Não se importe com isso, você só vai saber se arriscar.
-Prefiro esquecer essa história, vou dizer que gosto da Nadia, já estamos juntos há um tempo e acho que ela gosta de mim.
-Me ajude Lilian!
-O que você quer que eu faça?eu nem conheço essa menina.
-Eu te apresento ela, você diz que eu te contei que quero ter um relacionamento sério com ela.
-Olhe Túlio as coisas não são assim. As mulheres não gostam de intermediários, se você gosta dela tem que dizer pessoalmente.
-Tenho medo de levar um fora e dela dizer que não gosta de mim da mesma forma.
-Quando você vai pra uma festa e pede pra dançar com as meninas você não tem vergonha.
-Só que é diferente, porque geralmente estou bêbado.
-E se você estiver com a Nádia e a Clarissa pedir pra voltar, como vai ser?
-Eu deixo a Nádia e volto, só que não posso fazer isso!
-Tenho que reconstruir minha vida, mas vou amar a Clarissa pra sempre!
-Complicado isso primo, pra mim a gente tem que ficar com quem gosta de verdade. Todos merecem uma segunda chance.
-Vamos pra casa que você já bebeu demais rapaz.
-Prometa pra mim que amanhã você vai me ajudar com a Nadia.
-Ok, vamos ver o que eu faço.
Túlio e Lilian foram para casa. A mãe dele estava esperando e reclamou um pouco, só que ele caiu bêbado na cama e dormiu. Pela manhã, Lilian foi combinar a estratégia de conquista com seu primo.
-E aí, tudo certo pra hoje?
-Certo pra quê?
-Não lembra do que conversamos ontem?Você me pediu uma ajudinha.
-Oxe, não lembro de nada!

P.S. Os homens, mesmo quando gostam, não dão o braço a torcer diante de uma traição. Muitos deles usam a bebida para terem coragem de revelar seus segredos e mágoas. Para mim, homem também pode chorar, sofrer e perdoar...

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Festa no interior

Os carros que fazem o trasporte alternativo vão e voltam em ritmo frenético, saindo da capital para o interior. Ficam sempre lotados, com pessoas que querem apenas aproveitar a programação de pequenos municípios alagoanos ou até mesmo com as que seguem a rotina de visitar a família no final de semana.
Durante as paradas, o cobrador, que na maioria das vezes é bem jovem, grita informando o destino do carro. Pilar, Atalaia, Campo Alegre, Palmeira dos Índios, Arapiraca, afinal, aonde você quer ir?
Ás vezes, mesmo não indo para o destino desejado o motorista dá um jeitinho, combina o preço e muda o itinerário ou então, chega em um ponto do percurso e te faz entrar em outro veículo, dividindo o valor cobrado com o outro condutor.
São malas de roupas e sacolas com comida que abarrotam o porta-malas das vans. É gente lamentando ter que trabalhar na capital e dizendo que se pudesse, não trocava a paz do campo pelo caos urbano.
Além dessas pessoas têm as que preferem ir apenas para curtir, quando a prefeitura de algum desses municípios contrata uma banda famosa, juntando gente de todo o Estado. Alguns eventos têm fins eleitoreiros, como a promoção da vitória de prefeitos e vereadores nas eleições.
É interessante como no interior existe um fascínio da população pelos políticos. Até as crianças cantam a música e gritam o número dos candidatos, que por vezes, passam muito tempo no poder e nada fazem. Essas festas parecem compensar os votos, apesar dele não ter preço. São sempre gratuitas, satisfazendo a população e tenho que concordar que lá é possível conhecer muita gente legal e dá até para se divertir.
Na entrada de uma festa que aconteceu ontem, no município de Pilar, havia muitos carros estacionados e pessoas que se amontoavam perto do palco. Inúmeras barraquinhas vendendo, de bebidas a enfeites de cabelo com o nome da atração principal da festa complementavam o cenário. Todos colocam suas melhores roupas para aproveitar a farra, que até gera algumas brigas e namoros desfeitos. Meu Deus, tem muita mulher neste Estado....
A banda começa a tocar, homens e mulheres se juntam e promovem o arrasta-pé. Até quem não sabe os passos entra no ritmo. Ali, todos são iguais, querem só esquecer um pouco das mazelas cotidianas e serem felizes, mesmo que por uma noite.
O que me deixa irritada nesses lugares é a forma como alguns homens tratam as mulheres. Querem obrigá-las a dançar, puxam no cabelo e no braço, e os mais petulantes chegam a ofender. Mas, de repente, a banda parou e a chuva caiu, lavando a alma do povo...já era hora de voltar para casa.

domingo, 12 de outubro de 2008

Sinais do amor

Meu coração não é de pedra e nem mesmo de gelo, como alguns pensam. A racionalidade que chegou com meus “20 e poucos” anos pode até fazer com que duvidem disso, mas basta saber entender os sinais do amor.
Agir pela emoção nos dias de hoje pode machucar amantes incaltos, porque aonde quer que se vá, existe alguém querendo “roubar” um pouco do seu lado sentimental, e geralmente isso é tão breve.
Mas, declaro veementemente que não sou cética diante do amor, sei reconhecê-lo quando chega e ainda tenho a capacidade de chorar quando algo dá errado. No entanto, prego a mutualidade das sensações.
Amar incondicionalmente me parece cada vez mais difícil. É preciso que o outro também ame, que demonstre mais do que fale. Afinal, as palavras ás vezes enganam e assumem inúmeros significados.
A sensação maluca do amor adolescente pode demorar por uma vida toda, assim como pode vir sem que se veja, e seu aviso é algo incrível. A gente fica sem saber o que fazer direito, fala besteira e até age de forma estranha.
No meu caso, o coração entra em colapso e transborda em um misto de razão e emoção. Mas, como reconhecer uma paixão? Digo que se você sentir uma dor pulsando devagarzinho dentro de você, quando se pensa na pessoa ou em casos mais graves, quando se assisti a um filme ou se ouve uma música que te faz lembrar, você está apaixonado.
É preciso ficar atento e não ter medo de se machucar, preço que pode parecer alto demais. Só que amar de verdade tem ficado cada vez mais limitado às histórias. A maioria das pessoas arrisca menos, prefere investir em coisas mais abstratas e profanas, beija-beija, fica-fica e não se deixa levar.
Isso acontece pelo medo da infidelidade e ás vezes na busca da própria individualidade, só que não tem como saber se você não viver esse momento. A mágoa de relacionamentos passados insiste em doer, o que deixa o coração mais cauteloso.
É preciso que haja tempo para tudo, porque amar requer tempo para fazer crescer o sentimento, para reconhecer os defeitos do outro e mesmo assim, continuar gostando e acima de tudo é necessário tempo para que a gente seja feliz.
Como começar um namoro? Ambos se vêem, conversam, descobrem um pouco de cada um, trocam telefone e assim começa um turbilhão de sentimentos. Ligam e se encontram com mais freqüência, até que depois de um tempo se consideram namorados, o pedido formal ficou no passado.
Pareceria simples, não fosse o medo de se entregar de corpo e alma à alguém. Só que desvendar o desconhecido pode ser gostoso. Sei que aprendo cada vez mais sobre esse sentimento e juro que não sossego, porque preciso continuar acreditando que ele existe.

sábado, 11 de outubro de 2008

Passagem para o medo

Não há dúvidas de que a passagem de ônibus em Maceió é uma das mais caras do Nordeste. Também é fato que grande parte da população, que por não ter como arcar com as despesas do transporte coletivo, se submete à humilhação de entrar pela porta de trás ou se arrisca em bicicletas, à mercê de veículos pesados que trafegam pelas rodovias.
Presenciar cenas de pessoas sendo prensados nas portas traseiras dos coletivos já me parece algo comum. Porém, ver um homem apontar uma pistola para cinco crianças e três mulheres, que não pagaram a passagem, foge à regra.
Isso aconteceu após uma discussão com a "cobradora", que incentivou o homem a descer do ônibus e intimidar os que não pagaram. Os cinco pequenos, que usavam roupas rasgadas e sujas, reluziam o medo em seu olhar, enquanto os demais passageiros tremiam e se espremiam na parte traseira do coletivo, temendo levar um tiro.
Enquanto uma das mulheres, que mesmo bêbada, pedia para que o homem baixasse a arma, os demais emudeceram, pareciam perplexos com a situação. O "justiceiro" estava visivelmente embriagado e manuseava a arma de forma amendrontadora, parecendo querer atirar naquelas pobres pessoas.
Após alguns minutos, ele guardou a pistola e entrou no ônibus calmamente, como se nada tivesse acontecido. Os "maus pagadores" não desceram e os demais passageiros respiravam aliviados, apesar do medo ainda pairar no ar, já que eles temiam um novo ataque de fúria.
Não havia como entender o fatídico episódio, afinal, poderia mesmo R$ 1,80 ser mais importante do que uma vida? Sabe-se que o responsável pela confusão é um policial, que trabalha como segurança no mercado da produção, de onde aquelas mães voltavam cheirando a peixe, depois de mais um dia de luta para conseguir sobreviver.
Matar teria se tornado algo tão banal assim?Por que ninguém reagiu?As pessoas ainda têm compaixão? Mas, o que fazer diante de uma situação dessa? Policiais teriam o direito de coagir cidadãos?Ás vezes acho mesmo que o mundo está ao contrário...

Pensando e contando...

Ás vezes prefiro escrever do que dizer, porque as palavras me parecem mais familiares do que minha própria existência.
Pensar e contar, eis a proposta deste blog, onde traduzirei das mais diversas formas, minhas inquietações e observações acerca da vida e para além de tudo.
A literatura da vida real estará aqui e espero mostrá-la de forma imperfeita, com a consciência de que, além de contar histórias e preciso vivê-las.