segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração?

Ás vezes fico pensando como a gente pode gostar de pessoas tão diferentes de nós. Preferências completamente avessas, tipo de música nada a ver, forma particular de encarar as coisas. Será que os opostos se atraem? Para mim isso foi disseminado também para mascarar a premissa de que o homem é para a mulher e vice-versa.
Questionei-me sobre o compartilhamento das preferências depois de prestar atenção à música “Eduardo e Mônica”, do Legião Urbana, onde uma garota que faz medicina e que aparentemente é hippie se apaixona perdidamente por um garoto mais novo, que ainda está começando a vida.
Na realidade também funciona assim, só que à medida que descobrimos coisas em comum passamos a nos familiarizar com a pessoa, porque é tão bom e engraçado saber que existe alguém que gosta da sua comida preferida, daquela música que te deixa nas alturas, só que isso não basta.
Para muitos isso pode não ter graça nenhuma, porque é como se a outra pessoa não tivesse sua individualidade ou aderisse aos gostos do outro só para agradar. Logo, pode-se descobrir que duas pessoas “iguais” não dão certo juntas.
Sempre procuro pessoas parecidas comigo, mas estou casada de saber que cada um é único. Tem que haver um contraponto, já que um relacionamento precisa de doses de razão e emoção e seria monótono demais se ambos nunca se questionassem.
Amar é complicado demais ou somos nós que tornamos isso tão complexo? A verdade é que quando a gente se apaixona por alguém não desapaixona pelo simples fato da pessoa preferir biscoito de morango e você de chocolate ou por ela não querer ir para os lugares que você gosta ou até porque você curte reggae e ela forró.
Nem sempre a gente escolhe de quem vai gostar e é difícil saber se a pessoa vai nos corresponder, porque o sentimento envolve mais do que gostos em comum. A nossa outra parte, se é que ela existe, deve mesmo ter lá suas diferenças.
As pessoas procuram constantemente sua cara-metade e isso me lembra uma história da mitologia grega, que dizia que antes, existia uma criatura andrógina, que unia no mesmo corpo o masculino e o feminino. Esse ser mitológico desafiou os deuses e foi punido, separado de sua outra parte e condenado a procurar por ela. Como e onde vamos encontrá-la?
O amor é uma construção diária de amizade, confiança, compreensão e é claro, cumplicidade. É bom saber que o outro gosta do que você gosta, mas é ainda melhor saber que ele é capaz de trazer consigo o que não existe em nós. Afinal, já dizia Renato Russo: “Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão”?


Eduardo e Mônica (Legião Urbana)

Quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?
Eduardo abriu os olhos, mas não quis se levantar
Ficou deitado e viu que horas eram
Enquanto Mônica tomava um conhaque
No outro canto da cidade, como eles disseram...
Eduardo e Mônica um dia se encontraram sem querer
E conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer...
Um carinha do cursinho do Eduardo que disse:
"Tem uma festa legal, e a gente quer se divertir"
Festa estranha, com gente esquisita
"Eu não 'to' legal, não agüento mais birita"
E a Mônica riu, e quis saber um pouco mais
Sobre o boyzinho que tentava impressionar
E o Eduardo, meio tonto, só pensava em ir pra casa
"É quase duas, eu vou me ferrar..."
Eduardo e Mônica trocaram telefone
Depois telefonaram e decidiram se encontrar
O Eduardo sugeriu uma lanchonete,
Mas a Mônica queria ver o filme do Godard
Se encontraram então no parque da cidade
A Mônica de moto e o Eduardo de camêlo
O Eduardo achou estranho, e melhor não comentar
Mas a menina tinha tinta no cabelo
Eduardo e Mônica era nada parecidos
Ela era de Leão e ele tinha dezesseis
Ela fazia Medicina e falava alemão
E ele ainda nas aulinhas de inglês
Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus
De Van Gogh e dos Mutantes, de Caetano e de Rimbaud
E o Eduardo gostava de novela
E jogava futebol-de-botão com seu avô
Ela falava coisas sobre o Planalto Central
Também magia e meditação
E o Eduardo ainda tava no esquema "escola, cinema
clube, televisão"...
E mesmo com tudo diferente, veio mesmo, de repente
Uma vontade de se ver
E os dois se encontravam todo dia
E a vontade crescia, como tinha de ser...
Eduardo e Mônica fizeram natação, fotografia
Teatro, artesanato, e foram viajar
A Mônica explicava pro Eduardo
Coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar...
Ele aprendeu a beber, deixou o cabelo crescer
E decidiu trabalhar
E ela se formou no mesmo mês
Que ele passou no vestibular
E os dois comemoraram juntos
E também brigaram juntos, muitas vezes depois
E todo mundo diz que ele completa ela
E vice-versa, que nem feijão com arroz
Construíram uma casa há uns dois anos atrás
Mais ou menos quando os gêmeos vieram
Batalharam grana, seguraram legal
A barra mais pesada que tiveram
Eduardo e Mônica voltaram pra Brasília
E a nossa amizade dá saudade no verão
Só que nessas férias, não vão viajar
Porque o filhinho do Eduardo tá de recuperação
Ah! Ahan!
E quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão!

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