sábado, 11 de outubro de 2008

Passagem para o medo

Não há dúvidas de que a passagem de ônibus em Maceió é uma das mais caras do Nordeste. Também é fato que grande parte da população, que por não ter como arcar com as despesas do transporte coletivo, se submete à humilhação de entrar pela porta de trás ou se arrisca em bicicletas, à mercê de veículos pesados que trafegam pelas rodovias.
Presenciar cenas de pessoas sendo prensados nas portas traseiras dos coletivos já me parece algo comum. Porém, ver um homem apontar uma pistola para cinco crianças e três mulheres, que não pagaram a passagem, foge à regra.
Isso aconteceu após uma discussão com a "cobradora", que incentivou o homem a descer do ônibus e intimidar os que não pagaram. Os cinco pequenos, que usavam roupas rasgadas e sujas, reluziam o medo em seu olhar, enquanto os demais passageiros tremiam e se espremiam na parte traseira do coletivo, temendo levar um tiro.
Enquanto uma das mulheres, que mesmo bêbada, pedia para que o homem baixasse a arma, os demais emudeceram, pareciam perplexos com a situação. O "justiceiro" estava visivelmente embriagado e manuseava a arma de forma amendrontadora, parecendo querer atirar naquelas pobres pessoas.
Após alguns minutos, ele guardou a pistola e entrou no ônibus calmamente, como se nada tivesse acontecido. Os "maus pagadores" não desceram e os demais passageiros respiravam aliviados, apesar do medo ainda pairar no ar, já que eles temiam um novo ataque de fúria.
Não havia como entender o fatídico episódio, afinal, poderia mesmo R$ 1,80 ser mais importante do que uma vida? Sabe-se que o responsável pela confusão é um policial, que trabalha como segurança no mercado da produção, de onde aquelas mães voltavam cheirando a peixe, depois de mais um dia de luta para conseguir sobreviver.
Matar teria se tornado algo tão banal assim?Por que ninguém reagiu?As pessoas ainda têm compaixão? Mas, o que fazer diante de uma situação dessa? Policiais teriam o direito de coagir cidadãos?Ás vezes acho mesmo que o mundo está ao contrário...

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